Musa sombria

Sem título

Luiz Roberto Benatti

 Inúmeras vezes os estudiosos de formação acadêmica apontaram para um eu feminino na composição de Chico Buarque de Hollanda como se o autor desacoplasse de si próprio, a exemplo do que o astronauta faz com partes da nave espacial, a porção lírica de feitio da mulher, a fim de, a continuar na cápsula original ou masculina, dum ponto de vista particular, pudesse divisar  almas, aspirações, desassossego. Num desses desdobramentos, ele escreveu Carolina, pérola de grande valor. A musa tinha bem fundos os olhos marcados por tanta dor, que o poeta, ao adverti-la para que, desse modo, as coisas não iriam mudar-se, recomendou-lhe dançar e aproveitar o dia. Nesse tempo, Chico Buarque achava-se próximo do carpe diem horaciano. Mudam-se as musas, os tempos se alteram, os desarranjos de vida e política  fazem-se e se desfazem como as peças dum carro. É o caso de Tua cantiga, há pouco gravada. Musa anônima. Em vez de olhos fundos ou janela de onde pudesse adivinhar qual seria o passo seguinte, a musa, sequestrada, está sob vigilância dum guarda costa disposto a conduzi-la estrada afora. Não se sabe para onde será levada, mas, como ela usa lenço e perfume, ele seguirá o rasto de olor e, como no Hamlet, a musa será reencontrada pelo cheiro que se desprender do nome. O poeta erra no compasso, ao dizer que o sequestrador vigilante é um malvado que faz a musa chorar. Noutros tempos, o pai enfezado protegia a donzela com ar carrancudo e carabina como Kevin Costner.

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