ANTÍGONA, GODOT  E A  VELHA SENHORA

                   Sérgio Roxo da Fonseca

 

         Os palcos de São Paulo, numa época de grande relevância, abriram suas cortinas para a apresentação das peças teatrais: “Esperando Godot”, “Antígona” e “A Visita da Velha Senhora”.

         A peça “Esperando Godot” foi recentemente apresentada e já saiu de cartaz, coberta por grandes aplausos. Trata-se de um texto redigido em francês pelo irlandês Samuel Beckett. Foi apresentada pela primeira vez em Paris em 1952. O Brasil deu-lhe o seu segundo palco em 1955. A crítica elege a peça como a mais importante do teatro do absurdo. Fala do encontro de dois vagabundos lançados num deserto, talvez numa sala de espera, ou num ponto de ônibus, esperando um tal de Godot, que marca sua significação por não ter nenhuma significação. A relevância não é Godot, mas sua interminável espera.

         Antígona é bem mais velha. A tragédia foi escrita por Sófocles, que viveu na Grécia entre 490 e 406 antes de Cristo. O texto refere-se ao processo e à condenação de Antígona por ter enterrado o corpo de seu irmão Polinice, morto por ter se insurgido contra o rei Creonte.

          Antígona é interrogada se não era do seu conhecimento a existência de uma lei que proibia o sepultamento dos corpos dos traidores que deviam ser pasto dos abutres. Os infratores também merecem ser executados. Antígona confessa que tinha conhecimento da lei de Creonte mas sobre ela sempre existiram as leis dos deuses que impunham ao irmão sobrevivente sepultar o corpo do irmão morto. Diz ela a Creonte que entre desobedecer à  sua lei ou a dos deuses, preferiu cumprir a lei dos deuses e morrer com elas.

         Há um numeroso grupo de juristas que, inspirados em Antígona, que confirmam a existência de um plexo de leis não escritas outorgadas pelo povo que se encontra acima do conjunto de normas reveladas pelos legisladores. O parágrafo segundo do art. 5º. da nossa atual Constituição inspira-se em Antígona.

         O suíço Durrenmatt foi autor da “Velha Senhora”. Escreveu, dentre outras obras, “O Juiz e o seu Carrasco”. A peça agora é contracenada por Denise Fraga, considerada a nossa mais perfeita atriz shakespeariana.

         Uma pequena cidade é comunicada que está para ser visitada por uma milionária que dali teria sido expulsa por ter amado, na juventude, o seu namorado, fora dos limites assentados. Toda a população vai aguardá-la, inclusive o agora velho namorado que, muito embora seja casado, é pressionado pelos políticos a reverenciar o antigo amor, em busca do apoio econômico. A velha senhora passa a ser o eixo existencial da pequena população que, no passado, havia repudiado.

         No texto original, a Velha Senhora oferece mundos e fundos a todos, impondo uma única exigência: “matem meu antigo namorado”. Afirma-se que o autor parabolicamente projetava na imagem da velha senhora a “sociedade de consumo” que impõe suas regras acima de todos os mandamentos, inclusive os mandamentos de Deus.

         A peça foi filmada com Ingrid Bergman, como a senhora, e, Anthony Quinn, como o velho namorado.

         As cenas finais do filme foram adoçadas. As da peça, não.

         A cidade de São Paulo, com estas peças, homenageia a tradição de seu invejável e histórico palco.

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