Menos que um castelo, pouco mais que uma tapera

 

Luiz Roberto Benatti

De 1894 a 1903, segundo os registros da Hospedaria dos Imigrantes, do Brás, em SP, 1 milhão de italianos desembarcaram no porto de Santos e, a seguir, distribuíram-se por fazendas de café do Estado:Prado, Schmidt, Dumont e outras.  Mais ou menos nesse período, Minas Gerais abrigou 50 mil meridionais: pessoas que migraram de São Paulo para as Gerais. O leitor mais exigente deve relevar a precariedade dos dados de estatística e  registros de datação incompletos  tendo em vista os  lapsos  na triagem de  levas e mais levas de europeus tangidos pela grande seca do último terço do século XIX e que provocou  êxodos em escala mundial. A publicação de Crime e castigo, de Dostoiévski, em 1866, e O capital, de Karl Marx, no ano seguinte, articulam-se como obras seminais na captação por semelhança do estado de indigência de contadini e a baixa classe média da Rússia czarista.Dostoiévski tinha estado no exílio da Sibéria e sabia das coisas.O protagonista do romance mata, com  requintes de crueldade, a velha usurária, cujo assassínio, afirma Raskolnikov, justifica-se diante de elevados propósitos, como as ações de Napoleão Bonaparte.Raskolnikov quer dizer dissidente. Na criação de

Raskolnikov, Dostoiévski inspirou-se numa figura real, o poeta Lacenaire, assassino confesso que entendia que a prisão era a universidade do crime. Os Raskolnikovs do 64 foram mestres da turminha brava do Comando vermelho. Baudelaire disse que o poeta era um dos heróis de nosso tempo, tempo esse que se prolongou no atual. Vê-se, portanto, que as necessidades materiais, prolongadas, estimulam o crime.O machado de Raskolnikov foi trocado por revólver. Não tem revólver? Há armas comunitárias aqui ou nos EUA.  Trinta anos antes, Antônio Maximiniano Rodrigues vendeu a Giuseppe Sartori a fazenda Moreira localizada no Higienópolis e imediações, depois de ter-se deslocado de Conceição do Rio Verde/MG para São Domingos do Cerradinho. Terras boas para o café em Minas, terras excelentes para o café aqui, que mato ruim é bobagem sem pé nem cabeça.   Isto mostra que o deslocamento de crianças, adolescentes, adultos e idosos, por décadas, manteve-se regular.Se a coisa apertar aqui, siga em frente.  O romance desmontável Vidas secas, de Graciliano Ramos, configura o tema da fuga do torrão de origem para plagas desconhecidas,  de maneira dramática e precisa. Como muitas vezes o grito potente não passava de sussurro,  Marconi e Tesla nos presentearam com o telégrafo, de tal modo que o discreto ruído do código Morse trouxe da Europa a saudade de quem ficara, ou para lá enviou as queixas de quem viera.No período, o governo imperial abriu à livre navegação mundial os rios Amazonas, Tocantins, Tapajós,Madeira, Negro e São Francisco.A atividade econômica era febril. Vinte anos antes da libertação dos escravos no Brasil, os norte-americanos instituíram, em 1868, a jornada de trabalho de 8 horas. Eles liam Marx, nós as letras rubras do sangue nos pelourinhos. Como a propaganda foi sempre a alma e o cérebro do negócio, as companhias de navegação européias e brasileiras de imigrantes mandaram imprimir cartazes em que convidavam os meridionais a reconstruir o sonho com o saibro da esperança. Na Mérica, morava a esperança – “um país de oportunidades”.[Imagens: homens e animais, em CTV ou na Itália, porque a vida difícil achava-se em todos os lugares do mundo: carne, manteiga, queijo, montaria, tração do carro de bois. Antônio Maximiniano mourejava de sol a sol, como os meridionais na zona rural européia. É bem provável que esta casa modesta em que Maximiniano  residiu tivesse sido erguida na fazenda que ia da esquina da Minas com a 13 de Maio, antigo Bar Carvalho, até o aeroporto.]

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