CTV: 1918-2014

Luiz Roberto Benatti

Em 1918, o Estado de SP tinha 4 milhões e 300 mil almas e o Brasil 29 milhões. Entre 1915 e 1919, migraram para SP 17 mil italianos e 27 mil espanhóis, lembrados de que a grande massa de imigrantes havia puxado o carro (ou o navio) da Europa no final do século XIX. Se a televisão, como os velhos filmes da Metro, arrasta multidão para o boteco da cerveja da boa Juliana, em 17 nossos bisavós anarquistas deflagraram na Companhia Antarctica Paulista greve de enormes proporções para a época. Estávamos afiados e não nos contentávamos apenas com ver a musa rodar, sem o Capital dançar. Em 18, o continente europeu, no tempo da Primeira Guerra (a mais terrível delas), começou a exibir sinais de esgotamento: povos beligerantes arrebentados, soldados mortos ou estropiados ou desanimados, população civil faminta e desempregada. A guerra só é desejável para quem comercia armas ou veículos usados no fronte, como foi o caso do Sr. Ford. Ninguém atirava casca de batata fora e, num anúncio do Daily Mirror, de 15 de janeiro, ofereciam-se “pedaços de carne de cavalo a 12 pences o quilo”. As mulheres estavam dando duro fora de casa e isso, para o general Foch, era prova de igualdade entre os sexos: num cartaz, uma enfermeira, soldado ferido aninhado nos braços, como se fora o Cristo agonizante, era chamada de the greatest mother in the world. Mamãe, mamãe, és a rainha do lar e da war. Em Beaucourt, na França, refugiado num castelo, um soldado alemão anotou no Diário: “O lugar fede a sangue, suor, urina e excremento, iodofórmio e a roupa molhada. Mais em baixo, nos arredores, descascam-se batatas, e ninguém pensa em jogar as cascas fora; põem-se os feridos por cima. Dia e noite, soam gritos de dor pela casa, mas também exigências covardes e egoístas. O número de mortos no gramado do parque cresce constantemente, enquanto a escória do exército se agrupa em volta, com uma curiosidade revoltante. No canto, um homem cava sepulturas sem parar”. Na Vila Adolfo, os adultos do sul de Minas Gerais que tinham nos alcançado por Barretos, nos estertores do século XIX, já eram avós e seus netos souberam enfrentar com coragem o grande charco do Rio São Domingos. Muitos deles contraíram tifo, paratifo e gripe espanhola. Morriam como moscas envenenadas por bomba flit.A saga migratória dos mineiros poderá ser recuperada na obra do dramaturgo de Barretos Jorge Andrade. Leia Vereda de Salvação, Os Ossos do Barão ou Rastro Atrás. Faúlhas da guerra espalharam-se pelo mundo e delas ninguém ficou protegido. Grande parte das pessoas vivia na zona rural e a vila ainda não tivera tempo para empoar o rosto com talco Ross. A vila parecia-se com uma rua de café e você chapinhava em poça de água na Rua Brasil, um pouco acima do Clube 7 de Setembro, localizado onde até outro dia foi a Casa Facci. O clube 7, mais tarde, foi trocado pelo Hotel Acácio que imitou o hotel em demolição do poema de Carlos Drummond de Andrade. Ernesto Ramalho foi a SP e de lá nos telegrafou a novidade no dia 14 de abril de 1918: viramos município. Do clube 7, do Higienópolis e do S. Francisco, os catanduvenses saíram às ruas para comemorar o feito. Nascemos sob o signo do Carnaval. Catanduva em tempo algum quis dizer terra de mato ruim ou rasteiro. É o nome bonito duma flor desengraçada que você poderá colher pelos lados do CAIC. Ninguém mais se lembra de Ernesto Ramalho. Num dia desses, sugeri ao prefeito Macchione, meu ex-aluno, que desse o nome de ER ao belo trecho sinuoso do São Domingos, na altura dos Bombeiros:”Remanso Ernesto Ramalho”. Raro e apropriado. Ernesto inventou Catanduva e deu nome às suas ruas.

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