CTV: cardial & cruel

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Luiz Roberto Benatti

 Acuados pela grande seca do final do século XIX, prolongada e arrasadora  –  tanto é verdade que, depois de devastar Java, Nova Caledônia, parte da China e da Índia, calcinou também o Norte baiano -, os mineiros do Sul arriaram os cavalos, aparelharam os carros de boi e, migrantes audazes, cortaram em linha reta o extenso planalto de Barretos  até alcançar Cerradinho/ CTV. Henrique Dumont, o pai do aviador, com 300 contos de réis e 80 escravos, saiu de Caxambu com família numerosa, foi para Casa Branca e, de lá, rumou para Ribeirão Preto, de olho nas terras roxas ricas em basalto (Anote o leitor que as terras não eram roxas, mas vermelhas, em razão da má tradução de rosso/rojo, do Italiano e Espanhol) . Cerradinho, diminutivo de cerrado, é vegetação compacta ou densa, mas também vegetação xerófila dos planaltos, razão por que seu nome não se aplicava a CTV que, por sua vez, e em tempo algum, significou “terra de mato ruim”.Não fosse por razão diversa, o seria porque o café só medra em terras favorecidas pelo trabalho vulcânico, produtor do minério de ferro incrustado no basalto. Por isso é que o solo de basalto é vermelho, como vermelha será a fruta do café. Quando o sol da canícula dardeja o minério de ferro deitado no solo, suas reverberações imprimem-se na íris do colono até que, nele, aparecem os primeiros sinais da hemeralopia ou cegueira noturna. A riqueza do café é a catarata do colono. CTV ou Piptademia moniliformis é árvore leguminosa mimosácea, o angico-surucucu, a rama-de-bezerro, o pau-branco ou pau-carrasco. Desse modo, convido os professores das escolas da cidade a explicar para os alunos a diferença entre conteúdo e continente, quer dizer, CTV é o conteúdo, o angico, e não o continente – o equivocado mato ruim.

A topografia da cidade, feita de talvegues, quer dizer, colina acima, platô, colina abaixo, fio de água, e assim por diante, nos 2 lados de CTV, e o imenso charco do Rio Japurá/São Domingos obrigaram os antigos moradores a isolar-se na parte elevada dos talvegues – São Francisco, Higienópolis e Vila Motta, até que, aterrado e desidratado, puderam eles atravessar sem perigo e medo de contrair febres palustres o rio, quer dizer, da cidade imperial subiram o paredão da Rua 3/Brasil para edificar a cidade republicana ou getuliana. No dia 1º. de Maio de 1910, há 107 anos, portanto, a locomotiva Baldwin no. 9 passou pela Railroad & co. pela primeira vez, e, daí em diante, até meados dos anos 50s, ou um pouco mais, CTV foi cidade de musculatura econômica vigorosa, população ordeira, limpa, moderna e dirigida por bons administradores, nenhum dos quais divididos entre os mil negócios particulares de empresário e as funções públicas de prefeito. Quando a Baldwin pôs-se de novo em marcha, rumo a Catiguá, e até 1917, CTV traçou um roteiro de 8 passos para a consolidação de seu progresso: 1º. passo: a inauguração da estrada de ferro; 2º.: a inauguração da banda 24 de Julho do maestro Ernesto Scorza Carvalho, em 1914; 3º. passo: o lançamento do jornal O município, de Deodato Monteiro de Barros, no dia 15 de março de 1915, e 4º. passo:  a edificação da paróquia de São Domingos, cujo pároco foi Maurício Caputto; 5º. passo: a inauguração do Hotel Accorsi/Di Cunto, atual Hotel dos viajantes; 6º. passo:a instalação, por Gattaz Neme Maluf, da Empresa elétrica Cerradinho, cujo dínamo localizou-se na Rua Paraíba, entre a Brasil e a Pará; 7º. passo: a fundação do Clube 7 de Setembro, local de resistência republicana contra fascistas empedernidos; e o 8º. e último passo: a construção na Rua Goiás com a Mato Grosso do hospital do  médico José Zaccaro, com recursos próprios. Zaccaro transferira-se de Monte Alto para cá e o hospital ficou pronto em 1920. No dia 6 de setembro de 1918, de São Paulo, Ernesto Ramalho passou telegrama em que comunicava aos catanduvenses a transformação do distrito de Vila Adolpho no Município de Catanduva. Via férrea, hotel, luz elétrica, jornal, hospital, banda, paróquia, clube, enfim, o transporte de passageiros e mercadoria, além do envio de café para o porto de Santos; a luz elétrica para você ler o jornal à noite; o lugar da intemporalidade e encomendação das almas, bem como a transcendência do espírito, e o local de ajuntamento dos cidadãos para a troca de idéias. Como disse Ítalo Calvino em As cidades invisíveis: a vila é algo orgânico, coisa viva que precisa ser redescoberta aos poucos e com muita paciência. Até Maurílio Francisco Vieira, 23 foram os prefeitos de CTV, todos eles feitos dum tipo de bestunto que lhes deu bondade, capacidade gerencial e grandeza de alma para distinguir o lugar da coisa pública da privada.

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