Pequena crônica de adeus

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Sílvia Gabas

 

Não me venha mais com essa conversa mole de que é um ser bom, atento às dores de todos os tipos de infelizes que tenham o horrível destino de crescer à sua volta.
Não me venha com esse palavreado vazio enquanto o que se vê é manipulação e dissimulação para esconder o que brota nas suas entranhas com a força de jato incontrolável que é vontade de poder e controle que não te abandona.
Quantos ainda acreditarão nesse seu teatro de quinta categoria? Até quando os terá em sua plateia enquanto encena pecinhas lamurientas e pegajosas em que sempre obtém para si o papel principal?
O olhar voltado para um tempo passado mostra a percepção preexistente de que ela, a hora, chegaria. Percepção límpida e aguardada. Previsão e premonição. Também intuição.
E assim se deu. A derradeira decepção surgiu numa simples confirmação do já visto num plano distinto do material. Sabia que era somente uma questão de tempo para que o momento se declarasse finalmente pronto para acontecer. E aconteceu. Realizou-se, não sem antes lançar um olhar irônico, como a dizer, como alívio e descarga da ansiedade da espera: não disse que aconteceria?
E quando acontece o que sempre se esperou custa-se a acreditar que o que era percepção agora é realidade dilacerante.
Há fuga possível para dores jamais sentidas? Há consolo para a derradeira decepção?
E não há retorno possível. Não há como fazer de conta que não é. Não há como desistir da verdade que brota como erva daninha a tomar conta de tudo o que um dia foi flor.
Acostumar-se a essa nova ordem das coisas leva um tempo. Tempo que se instala lixando unhas, como se pressa alguma tivesse para comprovar sua indesejada chegada.
Você percebe que ele traz no colo a notícia desoladora: os dias bons se foram, o vaso quebrou, a taça trincou, o chão se abriu, o vazio das emoções se instalou.
Adeus às risadas, à cumplicidade, ao entendimento.
Adeus a um tempo bom. Que não mais será. Que perdido está.
No campo das possibilidades, o final melancólico é a maior delas.
E você sai, deixando para trás qualquer esperança de que este estado mental de bem estar fraternal possa um dia novamente te visitar.
Mas portas continuam a existir e lembram-te que aguardam sua mão tocando a maçaneta para abri-las. E você sabe, intuitivamente, que novas alegrias estão reservadas.
Calma e furtivamente, você sorri.

 

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