Crimes mais bem urdidos, criminosos cada vez mais ousados, cidadãos desarvorados

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Luiz Roberto  Benatti      

 Parte de minha infância, eu a vivi entre a zona rural e a vila, cujas paisagens eram mutantes e pacíficas: nuvens limpas, pássaros, carneiros. Mais tarde, compramos os fordinhos de bigode, barulhentos porém de fôlego curto. O único rádio da região pertencia a meu avô e os vizinhos sentavam-se à entrada da casa para ouvir notícias da Capital ou da Europa em guerra. Nosso bandido-herói era Meneghetti, de passos felinos e habilidades circenses que lhe permitiam agarrar-se às saliências dos velhos prédios de estilo antigo para roubar as jóias da madame adormecida. Era silencioso e assim quieto voltava para o quarto solitário de pensão. O prefeito ganhava umas merrecas e o vereador ouvia no final do mês um muito obrigado. Ninguém licitava coisa alguma: tudo era anotado na caderneta e você pagava no fim do mês ou na próxima colheita. Abandonadas pelos amantes, as mulheres da zona punham-se fogo nas vestes. Íamos ao circo para ver leões e o elefante e ao cinema para rir-se com Carlitos. A medida da vida era aquela encantadora repetição cujo modelo Homero configurou na Odisséia depois do retorno de Ulisses a Ítaca. Por que iria em nossos dias Meneghetti praticar em prédios envidraçados, com risco de vida, o que poderia ele fazer numa academia? Você só existe diante dum espelho, razão por que o vereador estaciona no pátio da Câmara uma gigantesca caminhonete cuja carroceria jamais foi aberta nem transportou meio sabugo. O bandido público impublicável quer o carro, o cruzeiro marítimo, conta em paraíso fiscal, sushi e costela em restaurante de luxo. Como fazê-lo se papai não lhe deixou se não um gato para ele puxar pelo rabo? Ele vai à luta e seu fronte é feito de mesa, computador, calculadora, lápis e borracha, junto com os amigos do peito. O que é que nós vamos fazer por debaixo do pano? Se o erário é público então ele não será de ninguém. Por mais idiota que o novo bandido lhe pareça, não se iluda: ele é esperto para boné e para não chorar as pitangas você  terá de atualizar seu conhecimento sobre criminalidade e personalidade criminosa. Facilito  as coisas para você ao lembrar que o criminalista Hans Eysenck estudou a tipologia do malandro, em quem viu elevadíssimo grau de excitação e baixa capacidade para a auto-estimulação. É um carente, coitadinho! O que é que o estimula? O tutu, a grana, a bufunfa, o dindim, o metal sonante, o fututo de seu filho, a merenda escolar, o mertiolate. Licitação é a ilícita ação pública.

 

 

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