Vizinhas

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Luiz Roberto Benatti

A vizinha da esquerda disse à vizinha da direita “Nunca vejo teu marido. Ainda que você me julgue meio enxerida, digo-lhe que não é de jogar fora. É guarda-noturno?”, ao que a vizinha do lado direito respondeu “Ele não guarda nada nem sai do truco. De manhã, depois da ressaca; à tarde e, se bobear, à noite. O açougue fica para amanhã. Macho nasceu para ser bonitão e não fazer nada, apenas coçar”. “O meu só gosta de pelada: uns marmanjões de calção e chuteira. O jogo nunca que acaba. Depois, vão todos para o vestiário tomar banho juntos.”Comentou a vizinha à esquerda: “Sinto asco só de  ver homem de braço, peito e perna cabeluda. Não sei explicar como aqueles tufos se parecem com palha de aço. Eu me arrepio”.
” Mais nojento que o truco não é: berram, dão tapa na mesa, comem amendoim sem parar, tomam cerveja preta ou chiboca.””Vou te contar uma boa, mas não conte para ninguém. Confio em você. Sabe a Regina do fundo, na outra rua, aquela que deu de pintar o cabelo de vermelho? O maridão foi internado no Mahatma. Tá doidinho de pedra. Tudo começou com o gato que ele estrangulou. Depois ele saiu de bicicleta e conseguiu trombar com carroça. Foi para o postão com costela partida,  depois pro Mahatma. Tá lá louquinho da silva. A ruiva foi visitá-lo, os colegas do marido começaram o assobiar, um fez gesto obsceno, o marido xingou, bateu com a cabeça na parede. Os enfermeiros o acalmaram com injeção de amansar doido. Eles gritavam:”Levante a saia, mostre a perseguida”. Loucos endoidecidos, loucos decididos, e ela excitada pra caramba, apesar da feiúra dos caras. Será que doido é louco de fato ou às vezes eles fingem? Louco, dizia meu pai, é o sujeito que rasga dinheiro e come cocô”.Todos os doidões menos um não pularam, assobiaram, suados e excitados. Menos um, no canto do pátio, ouvido colado no muro, mudo como peixe na lagoa, indeciso entre a minhoca no anzol e a fisgada mortal. De repente, a gritaria cessou. Por completo. Um silêncio sepulcral, misterioso.Os colegas foram-se chegando e, bem perto do doido do muro, tocaram-lhe o ombro, que ele logo encolheu com medo de que o mágico instante se desfizesse. Voltou-se para a assembléia, indicador no lábio, e disse “O muro sussurra o nome dela: Re-gina, Re-gina, e eu lhe respondi “Re-pagine a minha dor!”Quer mais? Sei não, mas dei de repetir as coisas como a tia Tadéia.

Sabe a história do sabonete? Sei não. Olhe para o fundo do meu olho para ver se tem guaraná.””Truco é diferente. Não tem chuveiro, não, mas só que eles gostam de ficar sem camisa,peito peludo. Tomam cerveja e babam, dão murro na mesa e babam. Cada um deles é o retrato escrito do pai ou do avô.” Sabe o que a vizinha do fundo me disse? Que o dela não sai do boteco Penúltimo gole da Maria da saia curta. Uns pernões. Os cachorros deixavam a bolacha da tulipa cair no chão só para ver a Maria abaixar-se,e um deles jurou em cruz que ela não usa nada por baixo, como a Cármen Miranda nos Estates.  Com a vizinha da frente o negócio melou feio. O dela arrumou namorado vesgo, nanico e careca. Estão numa esfregação de só ver. “Será que tá faltando homem ou há mulher demais no mundo? Não entendo nada disso de instatística. Rezar? Não confio em padre com menos de 70.Quando eu morava em São Sebastião do Cipó e era uma garota cheinha, o padre mandava eu trepar na escada para limpar os quadros da via sacra. Ele ficava embaixo para segurar a escada, mas de vez em quando olhava para cima.Quando eu olhava de volta para baixo, ele se benzia e dizia “vate retro” que eu entendia como porcaria.Homem nenhum presta nessa vida. É tudo farinha do mesmo saco. Uma tia minha ficou solteirona a vida inteira e morreu louca de pedra. Quando a gente lhe perguntava se ia bem, ela respondia “Foi o Pedro”. Devia ter sido a sua paixão de adolescente. O negócio desse monte de homens é que, depois que a gente põe filho no mundo, eles não querem mais saber da casa e voltam a juntar-se com outros homens. Falam de futebol, do rabo de saia, do carrão que não terão nunca, jamais, das hemorróidas. A vida é uma merda, dizia minha avó que completava dizendo que era como burro de carga que veio ao mundo para trabalhar a troco de chicotada.E a do sabonete? Conto noutro dia, porque o véio chegou.

 

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