A alga e o sapato

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Luiz Roberto Benatti

 Planeja-se o crime, mas não a dor. Constrói-se o álibi, apagam-se os vestígios, o cabelo desgarra-se do crânio, o sorriso exibe-se num celular. Todos os celulares são locativos, translocativos, relocativos, plurivocativos, audíveis, porém inservíveis depois do último não, do penúltimo não faça, do subseqüente vou gritar. A Bíblia sustém de maneira precária a perna manca da estante de livros. As penas dos códigos desfiam-se, sobem e depositam-se sobre as páginas duma petição surdomuda. A lua tinta de sangue enquadra-se pela última vez na veneziana entreaberta. Os automóveis fogem dos automóveis na rua revestida de dúvidas e surpresas. A seguir, a lua esfarela-se no fundo da lagoa. A lagoa tem a forma das mãos duma mãe pressurosa que despe o bebê para o banho. O automóvel ouve um estampido e afunda pela proa. Toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco. Quem diz isso é Isaías, bêbado às 3 da manhã, dependurado num poste. Isaías é um profeta ensandecido. O mapa de Sião,  molhado, foi transportado de trem  para Sobibor que ninguém sabe onde fica. Quem ouve profetas doidos que sussurram numa lata enferrujada? E a filha de Sião é deixada como a cabana na vinha, como a choupana no pepinal, como a cidade sitiada. Quando estenderdes as vossas mãos, esconderei de vós os meus olhos; e ainda que multipliquem as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Na Represa de Nazaré Paulista invoquei Augusto dos Anjos. Ah! Um urubu pousou na minha sorte!Também, das diatomáceas da lagoa a criptógama cápsula  esboroa-se ao contato da bronca destra forte! Lagoa do Jacaré, Lagoa do Coelho, Lagoa do Sapo, Lagoa do Forno. As diatomáceas de Augusto dos Anjos produzem um esqueleto silioso. As algas incrustram-se nas ranhuras da sola de borracha do sapato: phallus, tremella, hypnum, naias, calla, paspalum, digitaria, andropogon, flagellaria, narcissus. As botinas de Vincent Van Gogh iam para o campo à procura do amarelo e as de Magritte deixavam o pé à mostra. Os sapatos do assassino tinham pressa em matar.

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