Uma administração pública refratária à Cultura

balan

Luiz Roberto Benatti

 Se você perguntar a Afonso Macchione quem é o homem mais capaz da cidade, ele apontará para o espelho. Se, logo a seguir, você o inquirir sobre mim, ele torcerá o nariz. Ele declarou que não gosta de mim. Eu e ele somos descendentes de italianos, porém habitamos os antípodas: ele é calabrês, nós somos venezianos. Nosso negócio é o mar de Ulisses, o périplo, o retorno a Ítaca, o sonho. O dele é o ouro, o acúmulo, o desejo de controlar os indivíduos, a braveza, a incurável vontade de estar sempre dois palmos acima de todas as cabeças da cidade. Eu e os meus amigos, Evandro Ceneviva à frente, inventamos a Estação cultura, antro de fumeiros, e lhe demos estato de local privilegiado de difusão do conhecimento, Criamos as rotinas e designamos os locais para cada ato de cultura.A equipe era diminuta porém aguerrida. Além das oficinas, em 2005-2006, o salão de exposições assistiu à montagem de duas grandes exposições que ombrearam, descontadas as diferenças, com as grandes mostras da Capital e do exterior. Guardo nos meus arquivos implacáveis fotografias de sua mulher, irmãos e o falecido sogro, mas não dele, porque ele viajara para Santo Antônio dos Tomates Pelados.As mostras foram vistas por 26 mil pessoas. Elas se fizeram por uma espécie de carnavalização dos objetos que implica em tirar de seu enclave passivo fuzil ou sino para repô-los numa situação de transmissão e recepção de conhecimento. Nós contávamos a história da cidade por decanatos, dois a dois. Assim, no final de 2006, chegamos aos anos 40s. Como tivesse eu recebido o bilhete azul carimbado por orca furibunda, as mostras não se fizeram mais e, o que é pior, aos poucos o grande acervo do Museu histórico e pedagógico Pedro de Toledo virou quase nada, tanto é verdade que, de suas 2700 peças, não restaram se não umas 300. Um museu como esse não pertence ao particular, mas à comunidade. Trata-se do local da memória. Quando os 13 fuzis belgas do século XIX foram levados no lombo duma caminhonete, fez-se o BO que não deu em nada. Ao Pedro de Toledo, congregaram-se outros 5 ou 6 museus, no momento sucateados ou esfarelados.Como Macchione continua a olhar para o espelho como se ele nele estivesse e não sua imagem, discutível virtualidade, temos de aceitar que Tabapuã nos vencesse de capota. Perguntem ao triprefeito se ele está preocupado com o futuro de nossas crianças?

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