AMAPOLA E BITUMÉ

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                        Sérgio Roxo da Fonseca

 

            Recebemos uma carta do meu avô, convidando para o Natal, numa época em que cartas eram escritas em papel próprio. Avisou que havia comprado um cabrito para que pudéssemos brincar com ele naquele quintal infinito. Que era o dele.

            No dia e hora tomamos o trem caipira e fomos para lá balançando por curvas intermináveis percorrendo a estrada Caveira de Burro. Meu irmão e eu íamos contando os incontáveis postes. Ele dizia Humphrey e eu respondia Bogart. O nome do ator americano não cansava ninguém tanto que as surpresas multiplicavam-se como nos seus filmes.

            Num momento surgiam os famosos biscoitos de Jacareí. Mais adiante se assinalava o local em que os pescadores haviam tirado das águas do Paraíba a imagem da Virgem Santa. Mais adiante, o trem parava na estação da cidade em que haviam descoberto o Cruzeiro deixando o povo muito rico. Enfim a casa do avô e no quintal um cabritinho branco que recebeu o nome d Bitumé. Poucos dias da nossa infância foram mais felizes com as corridas atrás do Bitumé.

            Chegou o Natal. O avô noticiou que a mãe do Bitumé tinha ido à  nossa casa buscá-lo para passar o Natal com o avô dele. Chato, mas o Bitumé foi embora para Cotiara. Tinha o direito de passar o Natal com seu avô.

            A Cecília passou o dia cozinhando para a ceia de Natal, cantarolando Amapola, a divina Amapola ou a lindíssima Amapola, enquanto enfiava lenha no fogão.

            Na ceia, todos se sentaram ao redor da mesa, ainda ouvindo a voz  da Cecília murmurando baixo que a Amapola era divina ou era lindíssima, enquanto punha ensopado na mesa.

            Eu já sabia ler e ganhei o livro de Cruzoé. O irmão ficou com uma calça de casimira que devia pinicar mais do que pimenta do reino.

            E o Bitumé?

            O Bitumé, com certeza, recebeu um punhado de presentes do avô dele, todos concordavam.

            Aquela noite não saiu da minha memória por causa do Amapola murmurada pela Cecília, como pela ausência do Bitumé e pela macia carne do ensopado temperada com umas imorredouras saudades das horas que jamais foram renovadas.

            Tanto que o Bitumé jamais voltou da casa do avô dele.

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