A escrita de Deus rasurada pelo Diabo

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Luiz Roberto Benatti

 Abigor e Baal jogavam cartas há muitos dias, rolos de fumaça de charuto até o prato da lâmpada amarela suspenso no ar da saleta muito estreita. Vez ou outra, Kadeya introduzia um ás de ouro ensebado na manga larga da camisa de um deles, assobiava baixinho por entre os dentes pontiagudos e, rápido, voltava a sentar-se na cadeira de ferro em brasa, cercado por Laviatã e Naburus, narizes compridos, línguas pretas, olhos chamejantes, quietos como dois serviçais idiotas dispostos ao mal tão logo um dos jogadores se declarasse vencedor.Aprendizes. Abigor e Baal disputavam a primazia do Mal no mundo criado por Adir, Adon Olam, Avinu Malkeinu, Boreh e Emet. Os cinco não jogavam cartas e muito menos divertiam-se com a antevisão da desgraça que vez por outra recaía sobre os humanos que, diga-se de passagem, também aprontavam das suas. Abigor, Baal & os comparsas divertiam-se com a idéia de que o Mal era infligido aos homens porque eles haviam pecado. Bobagem! Não fosse o pecado, o que faríamos nós aqui? Sem papel, o melhor teria sido cantar noutra freguesia ou habitar a estrela Sírius 4836 da constelação regida pelo velho Nick, diabo aposentado que arrotava o dia todo, cultivava úlcera péptica e passava os dias aborrecidos esgaravatando as unhas sujas dos pés caprípedes. Não venham, pois, com essa de que não temos função. Burocrata brasiliense é que vive na mamata. Nós damos duro e temos de reinventar o prazer a cada minuto se não os japoneses vão passar  o dia pensando em cometer haraquíri. Abigor começou a lacrimejar de sono, abriu a boca três vezes, expeliu fumaça avermelhada e deu a entender que iria tombar a cabeça sobre a mesa de ébano. Kasdeya providenciou um balde de água enregelada, tirou-lhe as botinas de couro de crocodilo e meteu-lhe os pés até a água alcançar o joelho. Três dias depois, Abigor abandonou o jogo, acusou Baal de ladrão e foi dormir uns 300 anos para se recompor do estafante  carteado. Baal olhou para a turma do entorno e vituperou: Agora é a minha vez, seus fracotes! O que vocês aprontaram no litoral paulista não foi nada. Aguardem para contabilizar o resultado da tragédia que vou impor aos haitianos. Desgraça pouca é bobagem e, desta vez, pretendo não deixar pedra sobre pedra. Pobre tem de se ferrar e aquela senhora, Dona Zilda Arns, ficará soterrada sob os escombros duma igreja, fato que para mim é a conquista mais ambiciosa. Uma mosca diabólica que catava detritos por ali jurou em cruz que Kasdeya, Leviatã e Naburus sentiram um repelão no corpo como se estivessem amedrontados.Diabos em via de conversão? Abigor fez o que prometeu e o Haiti por pouco não desapareceu do mapa. Emet e Boreh choraram todas as lágrimas que haviam armazenado nos últimos séculos, rezaram pela alma dos mortos e se perguntam se as coisas, do jeito que estavam, deveriam continuar por mais algum tempo, porque o planeta estava cansado de levar bordoada, enquanto os políticos aproveitaram os três dias de luto oficial para pescar pirarucu no Pantanal matogrossense.

 

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