JESUS E MACHADO DE ASSIS

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                   Sérgio Roxo da Fonseca

 

         Debater preferências artísticas vale para destacar diferenças,  dificilmente para propiciar uma conclusão matemática. Várias são as opiniões sobre a arte e os mistérios deixados por Machado de Assis. Uma grande maioria dos leitores afirma que “Memorial de Aires” é a sua principal obra. Outros votam em Brás Cubas. Fico com “Dom Casmurro”.

         Trata-se do livro mais significativo lido durante a minha adolescência. Ontem e hoje não consegui extrair certeza de algum de seus mistérios. Por mais que tenha lido e relido o livro, não consigo bater com a aldabra na porta de entrada da alma das poucas pessoas ali descritas.

         A narrativa vale-se de uma técnica cinematográfica, na época, ainda não objeto de pesquisa dos técnicos. O cinema estava no  berço. No entanto, a narrativa é cinematográfica, começa no fim da exposição, um verdadeiro “flashback”, como hoje se diz.  A vereda vai do fim para o começo. O começo do romance é o seu fim. Muitas décadas depois os cineastas, especialmente os norte-americanos, usaram a técnica na tela.

         O romance destaca o infindo debate em torno da traição conjugal. Bentinho foi ou não traído pela Capitolina, a Capitu, para dar concretude aos seus ciúmes? Machado de Assis insinua a questão mas não oferece  forte instrumento probatório para condenar Capitu. Narra que o casamento de Bentinho foi desfeito em razão da suposta ou provável traição que desencadeou  tormentoso e incontornável ciúme.  Portanto, penso eu, o objeto do extraordinário romance está oculto no seguinte tema: a incerteza de Bentinho foi insuperável ou apenas pressentida? Basta uma presunção para matar o amor? O pressentimento pode desaparecer com o tempo? Ou não?

         Chamou-me a atenção os juízos sintéticos, sempre encontrados nos livros de Machado de Assis, tal como aquele expressado na última frase do romance: “Como disse Jesus, filho de Sirach, não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprendeu de ti”.

         Quanto ao tema central, há quem diga que, por ele, Bentinho condenou sua esposa, sem prova provada, extraindo de sua experiência a necessidade de aplicar um ensinamento bíblico, encontrado nas palavras de Jesus, filho de Sirach.

         Por muitos anos procurei na Bíblia o texto machadiano e não o encontrei. Minhas limitações são confessas. Insisti. Há pouco encontrei a chave. O Jesus autor da frase não é o Jesus Cristo. Trata-se de outro Jesus também bíblico. O Jesus, filho da cidade de Sirah, conhecido como Jesus ben Sirah, ou Jesus Sirácido, ou Jesus Sirácides, que viveu cerca de 200 anos antes de Jesus Cristo. Então a Bíblia tem mais de um Jesus? Sim. Machado de Assis fez para mim a revelação.  O mais velho Jesus foi reconhecido pela sua sabedoria. O mais novo pela sua bondade.

         O primeiro Jesus escreveu para a Bíblia o “Livro do Eclesiástico ou Sirácido”, onde se encontra a lida e relida frase transcrita por Machado de Assis, debaixo do título “sobre as mulheres” (9,1). Jesus Sirácido leciona que o traído é o professor e mestre da traidora.

         Aqui está a chave para as dores do Bentinho? Quem sabe? Talvez as dores do Bentinho estejam na incompossibilidade de dar concretude a sua dor. Resolve-se a incerteza com outra certeza machadiana: “nós matamos o tempo e ele nos enterra”.

 

 

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