A alma, assinatura do inefável

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Dito Inácio

Se você consegue ler a dor nos olhos de alguém, você consegue ver sua alma. Se você percebe o deleite nos olhos de alguém, eis aí sua alma em efusão. Se alguém tenta cobrir o próprio travo com um sorriso, é bem provável que você, olhando atentamente, também consiga perceber nisso um movimento da alma. Mas não se engane. A alma não é a algia nem a alegria nem aquela dissimulação da aflição. A alma não é uma emoção. Nem mesmo todas as emoções juntas são a alma. A alma é aquilo que sabe que, lassa ou radiante, dolorida ou indomada, seca ou molhada, continua oculta aos olhos e, como que para apresentar-se, num impulso atávico de doar-se para o encontro, espalha sobre sua invisibilidade as tintas da plenitude, do desconsolo, da doçura, do medo, do desejo. Da inquietude, que é sua natureza. Assim é a alma: ela é essa assinatura inefável, quase furtiva porém inequívoca, do quadro pintado com as cores e movimentos que você finalmente vê e, num descuido desesperadamente ingênuo, confunde com sua autora.

 

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