O REALISMO FANTÁSTICO

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                   Sérgio Roxo da Fonseca

         Os escritores latino-americanos Mário Vargas Llosa e o colombiano Gabriel Garcia Marquez receberam o Prêmio Nobel de Literatura. Outro peruano, Manuel Scorza, falecido em 1983, em um brutal acidente aeronáutico ocorrido no aeroporto de Madrid, compõe o quadro mais destacado da escola do realismo fantástico.

         Os dois peruanos frequentaram, em épocas distintas, a Escola Militar Leôncio Prado de Lima, na qual os cadetes eram apelidados de “perros”, razão pela qual o primeiro romance de Llosa chama-se “A Cidade e os Cães” ou, em eEspanhol “La Ciudad y los Perros”. Os romances escritos por Scorza e Llosa tiveram e têm grande sucesso, muito embora tenham os autores trilhado caminhos diversos. Hoje falo sobre os peruanos.

         Scorza teve como tema principal a tragédia dos índios habitantes das  mais altas punas da Cordilheira dos Andes. Dois de seus livros tiveram grande sucesso no Brasil: a “História de Garabombo, o invisível” e principalmente “Bom Dia para os Defuntos”, em Espanhol “Redoble por Rancas”. Escreve sobre o povo de um vilarejo que se revolta contra a ordem que ordena a instalação de uma cerca dividindo a cidade em duas.

         Ainda estudante, participou de um concurso literário no México: ganhou os três primeiros prêmios. Entre seus grandes romances, deixou um notável livro chamado “A Tumba do Trovão”. Tenho especial predileção pela história de “Garabombo, o invisível”.

         Vargas Llosa foi candidato a presidente da República do Peru, ficando em segundo lugar na eleição. Teve também preocupações históricas, transformando em romance “Os Sertões” de Euclides da Cunha, nomeado “A Guerra do Fim do Mundo”. Ganhou prestígio internacional com “Casa Verde”. Sou da opinião de que sua obra prima é o romance “Conversa na Catedral”.

         Outros elegem “Pantaleão e as suas Visitadores” ou “A Casa Verde”. Fico com “Conversa na Catedral”, o tipo do livro que todos os escritores gostariam de ter escrito.

         Nele narra a história de um jornalista, recém-casado, que busca libertar, no canil da cidade, o pequeno cachorro de sua jovem esposa. Há uma epidemia de raiva. Os cães apreendidos são mortos a paulada por alguns pobres homens. O jornalista, muito surpreso, permanece algum tempo presenciando o massacre, quando então percebe que um dos matadores no passado havia sido o motorista do seu falecido pai. Nota que o homem também o reconhece. O pai do jornalista havia sido um político de grande prestígio. Até agora, poucas são as páginas do livro. O principal vem a seguir.

         Não há por aqui algum lugar para comer e beber?, pergunta o jornalista. O antigo motorista indica um bar ali perto chamado Catedral. Os dois para lá vão. Comem e bebem. E nos vapores do álcool, o ex-motorista passa a transmitir ao jornalista a face oculta tanto do seu pai como também da política peruana. “Conversa na Catedral”, pelo relato delirante e surpreendente, ganha universalidade, tornando-se um dos mais perfeitos dos romances que li.

         Muito embora o Brasil ainda não tenha sido lembrado pela Academia da Suécia, os brasileiros sentem-se consolados indiretamente ao tomar conhecimento do prêmio concedido a Vargas Llosa porque enfim o escritor peruano escreveu um romance sobre um esquecido episódio da nossa história, a Guerra de Canudos, ou como quer o escritor, “A Guerra do Fim do Mundo”.

 

 

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