Beckett prefigurou o fim do homem imperial

Luiz Roberto Benatti

 Se entendermos a expressão “homem imperial” como a  criatura quase sempre imponente (ressalvado o talhe de Napoleão Bonaparte), peito enrijecido pelo estufamento, estiloso, cujo vigor transpira por todos os poros, acima da massa ignara, construtor de palácio imponente, de tal modo que seu sentido de imanência assenta-se sobre a argamassa da transcendência em que se incluem feitos de guerra e boa ou má condução dos vassalos, Samuel Beckett terá sido o que, depois de o ter descarnado e atirado pela janela armas e brasões, o enterrou numa cova bem profunda para que ele nunca mais retornasse à cena. A peça Play, quer dizer, a peça peça, quando o pano se abre, mostra três urnas funerárias, em que se vêem, metidos até o pescoço, um homem, sua mulher e a amante. As personagens do irlandês falam muito e quase sempre esse palavrório é pura algaravia e o que é mais deprimente: os discursos de um não têm nada a ver com o do outro que fala a seguir. Quando o espectador pensa que tudo terminou, os monologantes recomeçam do ponto zero e vão embora com suas falas soturnas. As crianças dos Romanov,  naqueles dias em que as doenças ceifavam mais vidas do que fazem nos dias que correm, padeceram de  sarampo. Na fotografia, por trás duma cortina médica de isolamento, lembram as criaturas de Beckett entaladas em urnas funerárias. A doença imprimiu nelas o pré- carimbo da morte: o império russo ruiu logo a seguir.

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