Com “Daddy”/”Paizinho”, Sylvia Plath rascunhou o epitáfio da dor


001Para Natália Capristo Navarro

Luiz Roberto Benatti

 

“I got a boot in the stomach”/Tenho uma bota no estômago remete às nossas expressões  “Sinto uma pedra no estômago” ou “Você meteu o pé na minha janta”. Além de significar bota ou botina, boot aplica-se também ao termo “superioridade”, figura de pai ou marido que nos acompanham desde o cabriolé até o Camaro. Quem sabe se a exibição de estato não se pendura nos peitos estufados de criaturas autoritárias  como as medalhas de guerra? “Daddy” é um poema histérico, quem sabe um dos melhores da produção feminina de Língua inglesa. Um grito selvagem pronunciado por uma mulher elegante.Em nosso dia-a-dia, obrigatória será sempre tanto a inclinação do tronco quanto o pedido de bênção a essa criatura pétrea marcada pela interdição, em cuja carranca estampa-se o “panzer-man”, o homem-tanque. Todavia, a voz que fala no poema vomita a gosma embrulhada no “saco cheio de Deus”/ a bag full of God. O poema deveria ser lido no consultório de psicanálise, na praça, no clube, na casa ou no bar, antes e depois que o pé calçado sem imprimisse no rosto de Electra. Otto Plath, o pai da poeta, era “uma estátua cujo dedão do pé era cinzento e a cabeça submersa no Oceano atlântico”. Erigiu-se, a duras penas, o pai totêmico, de coração vermelho bipartido, tipo de fascista adorado por mulheres, olhar de Meinkampf, bastardo, condutor da suástica, ariano divino  de bigode e olho azul. À lembrança do marido, Ted Hughes, que a trocou por outra mulher, Sylvia Plath confessou no poema que “se tivesse matado um homem, na verdade dois teriam sido os mortos”. Sylvia constrói os versos com o uso de rimas infantis como se a criança que ela foi rememorasse a presença do pai: Jew/through, do, you, ao mesmo tempo em que convoca como limites estruturais dos versos os nomes terríveis dos campos de concentração: Dachau, Auschwitz, Belsen, construções fantasmáticas que remetem o leitor à Brief an der Vater/Carta ao pai, de Franz Kafka: “Você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você. Como de costume, não soube responder, em parte justamente por causa do medo que tenho de você, em parte porque a motivação desse medo intervém em tantos pormenores, que mal poderia reuni-los numa fala. E se aqui tento responder por escrito, será sem dúvida de um modo muito incompleto, porque, também ao escrever, o medo e suas conseqüências me inibem diante de você e porque a magnitude do assunto ultrapassa de longe minha memória e meu entendimento”. Medo e asco.

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