Jornalismo e cafezinho

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Luiz Roberto Benatti

O prefeito não degusta, com vagar, xícara de cafezinho nem bate papo descontraído

com Pedro ou Paulo, mas especula com certa agitação sobre a cotação da bebida

na Bolsa de Nova York. O prefeito está num bunker, o jornalista desvia-se do tiroteio

em campo aberto. Não existem inocentes no poder, mas há muitos jornalistas deslum-

brados com os  fogos de artifício do poder. Ao terminar o mandato, o prefeito volta para

o lar onde o conforto sobeja e para suas empresas promissoras, enquanto o jornalista

corre com as panelas para recolher a água das goteiras. A geografia do prefeito é uni-

versal, a do jornalista circunda Catiguá, faz a curva e volta. Se, por acaso, o jornalista

sentar-se por meia hora com o prefeito, recomenda-se que registre num gravador de

espião até mesmo o bocejo do interlocutor. O prefeito combina com Fulano o que

havia descombinado com Altrano, o jornalista tem de ficar atento aos plurais bem

como à sequência lógica das palavras. O prefeito nunca dirá ao jornalista que prato

a cozinheira preparou para o almoço, enquanto o sanduíche do jornalista será devora-

do no boteco do Pedroca. O prefeito, dia e noite, crê que seu reino durará mil anos,

enquanto que ao jornalista caberia levar à risca a lição de Thomas Jefferson: “O homem

que nada lê é mais bem instruído que o cidadão que não lê mais nada além de

jornais”. No dia seguinte, as matérias do jornal estarão velhas, mas o day after do pre-

feito é sempre uma promessa de que ele poderá perpetuar-se no cargo. _

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