Conto extraído de Cartas à minha irmã

010

Maria Fernanda Elias Maglio

                                                                        Catanduva, 18 de outubro de 2001

Querida Aline,

Não vou escrever que espero que esta carta te encontre bem e com boa saúde. Não só porque você detesta clichês. Esta carta não vai chegar até você. Vou botar no envelope o endereço da pensão em Berlim. Você não está lá. Há muitos anos que não está. A dona da pensão disse que você ficou por dois meses. A estadia estava paga para quatro e você só ficou dois. Depois sumiu. Pegou a mala de lona e um metrô. Vai saber pra onde, Aline. Nem deve estar mais em Berlim. Vai ver vive em Praga, Estocolmo, Genebra ou até Moscou. Decerto nem está mais no planeta. Foi morar em Júpiter. Às vezes penso que você morreu. Que está embaixo de terra de neve, sem nome e sem flor. Que a sua cabeça ruiva e as pernas de alicate foram devoradas pelos vermes que comem a morte. Já pensou, Aline? Ser comida por minhocas de defunto. Por isso que eu não quero morrer. Nunca. Por conta das minhocas. Tenho pavor só de pensar naqueles bichos me mastigando as cutículas, fuçando comida apodrecida nos vãozinhos dos meus dentes. Lembra quando a gente ia ao cemitério com a mãe lavar os túmulos antes do finados? Coisa mais ridícula ensaboar aquelas tumbas. Como se os fantasmas dos parentes fossem se importar se o cimento está encardido. Mas a gente gostava, lembra? A gente ia no finalzinho da tarde pra não fritar no calor. Porque esta cidade é tão quente, Aline? Todo mês verão. A gente derrubava os baldes de água bem rápido, pra respingar na blusa. E enfiava a cabeça no poço comunitário. A mãe via e nem falava nada. Dizia que não podia danar com criança na terra dos mortos. Lembra dos túmulos rachados? Aquele povo enterrado em mil oitocentos e alguma coisa no lado direito do cemitério. Era a ala dos esquecidos. A pedra rachada, os nomes quase apagados. Parente de ninguém, morto de ninguém. A gente se agachava para olhar dentro da rachadura. Não via nada. Só o cheiro de umidade das coisas enterradas. Até hoje me lembro de morte quando me vem um cheiro úmido. Ultimamente tem me lembrado você. Esses dias saí na rua depois de uma chuvarada. Fez um calor de um dia inteiro e quando deu cinco horas despencou a maior água. O cheiro da calçada resfriada de repente pela chuva me lembrou você, Line. Em outra época me lembraria só a morte. Agora me lembrou você.

Mas se você estivesse morta, o pai não tinha aparecido pra mim no sonho. Foi ontem. Ele estava em um corredor escuro, tinha só uma luzinha ligada. Estava ligada nele, saía do peito. Ele dizia pra mim (não era bem pra mim, eu não estava no corredor, mas era para mim, sabe?) “você contou pra sua irmã?”. E ficava repetindo isso, segurando a luz do peito, como se amparasse uma ferida, um buraco de bala, o talho de uma facada. Acordei apavorada. O bebê esperneando na minha barriga. Ah, Aline, quase me esqueço de contar que estou grávida. Lembra do Jane, filho da dona da papelaria? É dele. Não é meu namorado, nem nada. Ele diz que não é dele, que quer DNA e o escambau, mas é. A gente sempre sabe a semente que vinga. Se você estivesse aqui, se não estivesse na Bulgária, na Turquia, em Saturno ou morta, eu te chamava pra madrinha. Ou abortava. Se você estivesse comigo, certeza que eu abortava. Até comprei cytotec. Cem paus em uma cartelinha e não tive coragem de tomar. Agora eu já estou de seis meses. Na verdade vinte e duas semanas. Viu, Line, como os médicos falam? Semanas. Fico imaginando se você tem filho. Aí, nesse outro universo. Vai ver está grávida agora, junto comigo. Não ouviu dizer que gêmeas compartilham experiências mesmo longe? Taí, bem que podiam fazer um estudo com a gente. Eu aqui, no forno desta cidade de merda e você na Polônia, Alasca, Sydnei, Pequim.

O que aconteceu com você, Line? Ainda dança balet? Ainda usa óleo de girassol pra não ter varizes? Lembra da perna da mãe, toda encalombada? E você morrendo de medo de ficar igual, virando o óleo nas pernas todo santo dia. Eu já tenho quatro caroços, quatro nós de veias roxas. Três em uma perna e uma na outra. Moro aqui na casa sozinha. O pai morreu. Aliás, é por isso que escrevo, pra contar que o pai morreu. Não foi ontem, nem semana passada. Depois de amanhã faz dois meses. Eu não tinha um puto pra pagar o enterro, o caixão, a missa. O Tio Valter que pagou. Só conto agora porque o pai pediu. No sonho da luzinha. Se você estivesse morta, o pai não pediria para eu te contar da morte dele. Ele mesmo iria dizer “oi filha, cheguei, também morri”. E vocês seriam uma família de novo. Você, a mãe e ele. Sem mim. Vai ver daria certo. Vai ver o pai não ficava espiando a gente. Lembra? Eu sabia que ele ia na sua cama e você sabia que ele ia na minha. Ele ficava só olhando. Uma mão dentro do shorts e a outra no joelho. Bem firme. Ele ocupava as duas mãos para não pôr a mão na gente. Ele punha em você, Line? A mão? É por isso que você foi embora? Porque o pai espiava a gente dormir e tomar banho? Depois que você foi embora, ele parou. Ele parou porque você sumiu? Será que você se salvou e salvou a mim? Será que ele teria persistido? Teria enjoado de olhar os banhos e se enfiado com a gente no chuveiro? Será, Line, será? Se você não tivesse ido embora, vai ver o pai não parava, vai ver o filho que eu carrego seria dele. Meu e dele. A minha genética, que é metade dele, se misturando com a a dele, que é toda dele. E eu teria um filho que é mais dele do que meu. Setenta e cinco por cento dele.

Escrevo tudo isso porque você nunca vai ler. Ninguém vai ler. Talvez só os moços do correio, quando a carta voltar, “destinatário não encontrado”. Talvez violem minha correspondência e descubram que fomos violadas. Ambas. Nós duas, envelopes arregaçados, rasgados sem expectativa de emenda. Ah, Aline, tudo que eu queria era saber é onde você está.

O seu Clóvis acabou de bater aqui em casa. Lembra, dele? Está vivo ainda, acredita? Parece uma múmia, mas está vivo. Decerto tanto quanto você. Ele me pediu dois copos de farinha, disse que vai fazer pão. Você acha, quase uma múmia e fazendo pão. Eu acho que é mentira. Que ele vem aqui pedir farinha só pra falar com alguém. Uma vez por semana ele bate palma aqui em casa dizendo que precisa de farinha pro pão. Eu dou. Tenho dó, Line. Deve ser duro ficar velho e não ter ninguém. Toda vez ele pergunta do bebê e fala que vai ter uma conversa com o Jane, pra ele casar, assumir o filho e tal. Deus que me livre de casar com aquela anta. Ele continua igualzinho a quando você conheceu. Uma anta. Ainda é fã dos filmes do Rambo e usa aquela faixa ridícula na testa. Igual quando era moleque. Eu transei com ele com faixa na testa. Eu gozei, acredita? Como pude? Sei que você pergunta como pude. Eu também, Line. Como pude? E justo a genética dele foi vingar na minha barriga. Genética de Rambo. Será que eu vou conseguir amar o bebê? Será que vai ser pecado não amar? Eu iria amar se fosse filho do pai? Seria mãe do meu irmão. Queria saber se ele fez alguma coisa com você. Enfiou a mão, te pegou enquanto você dormia. Ele nunca encostou nada em mim, juro pela Nossa Senhora de Fátima. O único motivo que eu encontro pra você ter ido embora assim, sem retorno nenhum é o pai ter feito alguma coisa com você. Porque você não falou, Line? Pra mim, pelo menos. Sei que não adiantava contar pra mãe, era capaz dele até bater nela, mas pra mim? A gente falava com a tia Dodora, ia até na polícia. Doeu tanto que você teve que se mudar pra Noruega pra dor passar? Me responda, Line, ainda tenho esperança.

Da sua irmã,

Ilana

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s