Falta-nos a finíssima ironia de Oscar Wilde

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Luiz  Roberto Benatti

Oscar Wilde publicou em revista O fantasma de Canterville, há 130 anos, não porque acreditasse em criaturas desossadas capazes de arrastar correntes por cômodos de piso de carvalho ou tentar, frustradas, assustar incautos, mas porque ele dominava alguns dos truques dos labirintos da mente que nos levam a acreditar no inexistente enquanto reafirmamos que o existente é pura fantasmagoria de nossas vísceras feitas de trapo e barbante. Norte-americanos ricos vão a Londres dispostos a comprar um velho castelo habitado por fantasma autêntico e, de fato, encontram um desses habitado por um nobre que assassinara a distinta esposa. A seguir, o nobre foi morto pelas mulheres dos irmãos. Esse açougue em família é um pouco parecido com o nosso mas nós não temos castelos. Não temos castelos mas temos a sacrossanta televisão, nosso horizonte mental ou nossa aurora boreal cujo colorido nos deixou atordoados e com dificuldade para admitir que, no final, o fantasma entristeceu-se porque já não conseguia amedrontar nem pé de mesa. Nossos fantasmas chamam-se Pabllo Vittar ou Anitta e nosso dia-a-dia é feito de nada e coisa alguma, já que não temos paciência nem para ler duas linhas da bula do emplasto Sabiá.

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