O mundo de cada um

001

Luiz Roberto Benatti

 

A cabra

abracadabra

não há cãibra

que me enclausure na  montanha

flor abscôndida

que a pedra cubra

cacto na penumbra

dois goles de água salobra

sem listras de zebra

na contramanobra

bebo o que sobra

sorvo a sombra da vértebra

e aspiro  o vento na álgebra

 

A mosca

a mosca pousa no mel

e na aba do chapéu

no molho

e no repolho

na pia

e no nariz sardento da tia

na mão

e no dorso do mamão

na escada

e na planta da sacada

a mosca-camicase

fundo mergulha na garrafa

como se fora paráfrase

 onde fica sai,  não sai

a mosca ali definha

não era uma girafa

 

Pedras

não medra

a pedra

na cátedra

mas lá onde se canta a pedra

talvez um doido de pedra

ou quem fume pedra

a sós na selva de pedra

até não restar pedra sobre pedra

se for cabeça de pedra

pego pelo gambé

sem direito a banho de guiné

vai logo quebrar pedra

pedra lascada

não pedra preciosa

menos que pedra sabão

igual a pedra de fogo

até o dia do rogo

Camelo

dobrado no tornozelo
ofereço água
ao camelo
ele me pede gelo
digo-lhe então sem medo
“pode ser caramelo
cogumelo ou marmelo?”
vou bater-lhe com chinelo
respondeu-me o dromedário
que rápido enfiou-se
num grande armário
de dentro, berrou nervoso
ao mascar prego com osso
“tenho duas corcovas
por isso dromedário não sou
seu Mané- otário!”

 

Cavalo

Se existe nunca vi
cavalo acéfalo
nem bicéfalo
o meu é forte
como um búfalo
não tem calo
acorda antes do galo
não se mete em escândalo
nem trota no labirinto de Dédalo
cavalga no asfalto
não desliza como robalo
de ninguém é vassalo
meu cavalo de giz
sabe onde tinha ou tem o nariz

 

Paspalho ou espantalho?

sol ou vento
coração de lata
sem omoplata
não tive império
não cometi adultério
trovão e orvalho
o cabelo grisalho
é casca de alho
a camisa e a calça
cosidos retalhos
dê-me o guarda-chuva
ou tire de mim o pavão
com quem me equivalho?
com Augusto dos Anjos
berrem ao escrivão
de banjo à mão
& sábio no magistério
rápido nos leve
ao necrotério
sentir no ar o mistério
sem impropério

 

Cavalo II

não há quem o prenda

nem por encomenda

no Labirinto de Dédalo

empina-se sem escândalo

crina ao vento num estalo

nem vândalo nem vassalo

& sonha com o mar

no intervalo

 

Sapo

quem beija o sapo

ainda que à moça pareça guapo

ou engole sapo?

querem apenas atirar sal no sapo

longe da mesa e do guardanapo

falar mal do  sapo?

mesmo de pedra, não quero papo

 

O mundo de cada um

o gato lê no rato
o olho do impostor

o coelho lê no capim
a fome incolor

estão na mesma sala
da sra. mestra Coala

o beabá do branco coelho
é como o do gato preto

as horas passam e nada
de se ver onça pintada

a paz aqui não ouve
estampido de granada

assim, amanhã eles voltam
para o giz com a tabuada

1 + 1 são sempre três
até para cão escocês

1 x 3 são três
até para o corvo inglês

o gato só quer almofadas
de alecrim perfumadas

de coração disparado
o coelho só caça no banhado

assim como vão as coisas
o gato será herbívoro

assim como vão as coisas
o coelho será carnívoro

seja pedro, josé ou paulo
abra-se bem ao diálogo

um dia a mestra acordou
com a avó atrás do toco

quis pôr fogo no mundo
como faria qualquer louco

o que ela então propôs?
Falar de aflição ou guerra

e os amigos o que fizeram?
Foram-se para outra terra

E o poema? inquiriu o grou
linha final – acabou

 

Girafa

quem esticou o pescoço da girafa?
o Rafa
escondido numa garrafa
atirou-lhe a tarrafa
a mãe que tudo abafa
agora tem estafa
ora bolas! só por que a girafa
era ágrafa?
o bicho decidiu:
vou ser topógrafa
no zôo de Paris
cantarei Sous le ciel de Paris
e todos pedirão bis

 

Faca

o ser da faca

não é abrir  ventres com trapaça

cortar em dois a jararaca

promover no boteco

arruaça

o ser da faca

é vedar-se a ameaça

cosida no forro da casaca

ou  mostrar-se

como o tigre de Blake, fatiado

a destreza da faca

é cortar a cebola

bola parabólica

sem sangue & fora do ringue

 

Espelho

se não me vejo
por falta de espelho
onde meterei o bedelho?
cavo funda toca
de coelho
enfureço-me
infiel escaravelho
tropeço no joelho
tombo de bruço
o rosto vermelho:
quero meu espelho!

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