O pensamento tem de produzir o impossível

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Cláudio Ulpiano

 A nossa universidade não é uma universidade para produzir pensamento. A única coisa que se produz na universidade é obediência. Se ensina o estudante a obedecer. Tanto que eu luto com muitos de meus alunos quando eles começam a dizer para mim: “eu não suporto mais”. Eu digo: “Aguenta a barra. Aguenta a barra e pega esse diploma. É um instrumento de guerra”. Porque a universidade só passa isso para nós. Quando você começa a verificar aulas em que a questão passa a ser o pensamento o estudante fica inteiramente surpreendido. Ele não está habituado, não está formado para isso. Porque desde os 3 anos de idade ele não para de receber essas forças constituintes de marcas e sinais. E em linguagem literária o que se produz é um homem dos hábitos. Um homem que tem um conjunto de hábitos e julga que aquele conjunto de hábitos que ele tem é a natureza dele. Então é preciso passar uma força, – sobretudo a literatura é muito bonita para isso – de estranhamento. Abrir uma espécie de buraco, onde você começa a verificar que sua natureza não é o seu conjunto de hábitos. Quando a gente lê Michel Foucault a gente fica muito surpreendido por causa dessas coisas. O Foucault quando vai pensar a homossexualidade grega diz: “a homossexualidade grega não tem nada ver com a homossexualidade do ocidente. Se vocês quiserem articular a homossexualidade grega com a do ocidente vocês não irão entender nada”. Aí o homem do hábito diz assim: “esse Foucault é um louco”. Aí Foucault diz: “Sou. Porque é preciso ser louco para vencer os hábitos”. Por isso que a loucura não para… A loucura e a literatura, a loucura e a arte, a loucura e a filosofia não param de ser perseguidas pelas forças repressivas do campo social, psiquiatria e etc… Porque é exatamente isso. Para produzir esse mundo novo é preciso correr um risco muito grande. Correr um risco de pensamento. E – aqui é de uma beleza incrível – isso é o pensamento não naquilo que é real. E não naquilo que é possível. A questão do pensamento é produzir o impossível. Produzir o impensável. É exatamente o que Nietzsche fez! É exatamente o que Spinoza fez! Ir além de todos os limites que nos foram dados por Kant, era o pensamento. Transgredir é muito mais do que transgredir, é produzir exatamente um novo. Produzir impossibilidades! [Cláudio ULPIANO in: Pensamento e Liberdade em Spinoza. Aula gravada em 1988, no Planetário da Gávea, RJ]

Nota: Clóvis Molinari Jr. foi aluno do prof. Ulpiano no RJ e, graças à sua gentileza, pudemos publicar neste blogue um aperitivo da forte bebida deleuziana do grande intelectual.

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