O LOBO DA ESTEPE

 

TODO HOMEM É UNO QUANTO AO SEU CORPO, MAS MÚLTIPLO QUANTO À SUA ALMA (HERMANN HESSE)

Anna Maria Monteiro

A noção de sujeito que figura em O lobo da estepe não pode ser compreendida como essência petrificada, mas como fluxo contínuo que induz à transformação. Sendo assim, se o “homem não é uma forma fixa e duradoura […] é antes um ensaio e uma transição” (HERMAN HESSE, P.69)

A narrativa de Hermann Hesse adentra no realismo fantástico, o surreal, o nonsense, sobretudo quando Haller sai da pensão e passa a transitar pelas ruas e se relacionar com outras pessoas. É neste contexto que ele ingressa no chamado “Teatro Mágico”, cuja entrada contém o título “só para raros, só para loucos”. Ali Haller encontra o músico Pablo e Hermínia, os quais, mais uma vez, indicam ser “alter egos” do próprio Hermann Hesse. Vale destacar que Hermínia é o feminino de Hermann.

O LOBO DAS ESTEPES é uma obra que se propõe a deslegitimar o senso comum e, consequentemente, visa ampliar a percepção usual do leitor, através de uma escritura selvagem capaz de percorrer caminhos inabituais ao potencializar o embate entre visões de mundo, desmistificando assim a noção usual do que se considera o indomesticado no homem. Para isso, parte-se de duas concepções explícitas no romance: uma de sujeito e a outra de representação, com o intuito de mostrar que é na esteira destas noções que a obra se constrói e pode, a partir da elaboração estética destas ao longo de todo o texto, desestabilizar a compreensão trivial na abertura proposta pelo diálogo.

Hesse nos expõe que a nossa consciência na verdade é constituída por diversos fragmentos dispersos, de naturezas diferentes, transitando entre o consciente e o subconsciente, geradas pelas experiências. A grande questão que o livro nos joga, é como conciliar essas variantes de características opostas; como organiza-las e fazê-las fluir ordenadamente em nossas consciências, para que, afinal, sejamos felizes com o estabelecimento do equilíbrio.

Segundo a minha interpretação, O lobo da estepe nos demonstra que a razão da nossa infelicidade reside na rebeldia desses elementos da consciência que não se compatibilizam e se chocam sistematicamente ao longo da nossa vida. Isso faz muito sentido se analisamos que a vida é repleta de contradições, de decisões difíceis, de privações, de conformismos, arrependimentos; todas

 essas mazelas baseiam-se na contrariedade dos nossos pensamentos que, às vezes, não conseguem selar um consenso. Assumimos diversos caracteres até mesmo no cotidiano; temos oscilações de humor, mudanças de percepções e alternâncias drásticas no que tange ao nosso comportamento em geral se for analisado retrospectivamente. Tudo isso serve pra comprovar que a divergência desses fragmentos que formulam nossa consciência afeta visceralmente e permanentemente nossas vidas.

Em suma, somos contraditórios e temos que lidar com essa discordância dentro de nós. Nessa obra prima, Hesse expressa de maneira incrível que não existe maniqueísmo, não existe preto no branco; o que de fato acontece é que não só a personalidade, mas tudo ao nosso redor é construído por diversas camadas e facetas que se acrescentam até formar um organismos complexo com inúmeras variações. E o lobo da espete serve como  alegoria brilhante para traçar um paralelo com o mecanismo da consciência: todos os fatores que fundamentam a existência da consciência são lobos das estepes; são selvagens, solitários e principalmente desligados de qualquer sentimento de pertença ou identidade. São diferentes, tão diferentes um dos outros que se refugiam e reagem violentamente contra qualquer manifestação de interação. O que nos resta é domar esses lobos ou pelo menos adocicá-los para que não nos perturbem tanto.

 

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