O nariz

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Luiz Roberto Benatti

 

Minha avó Tonsila chamou sempre o meu nariz de Óstio da Tuba Auditiva, mas eu nunca soube o motivo do nome estrambótico. A tudo eu cheirava como se fosse  gato persa, em tudo eu enfiava o nariz e, na adolescência, entrei em êxtase quando soube que os esquimós se beijam esfregando entre si o nasal. A informação do professor de Anatomia, de modo imediato e obsessivo, provocou em mim comichão no nariz, sem que eu encontrasse sossego  em qualquer lugar. Quando não era isso, lá vinha a enxurrada de meleca esverdeada que me levava a esgotar o estoque de lenços de meu avô. Passava os meus dias fagueiros ouvindo Nariz sensual do Juca Chaves. Lembram-se? Não, vocês não se lembram de nada porque são muito jovens e estão ocupados com o falso caipirês universitário. Nariz, ai, meu nariz, vende-se este apêndice ou então se dá de graça, pedúnculo antiestético, grosseira massa que nada tem de belo ou de poético, e é uma desgraça o dito cujo narigão, ao qual só há uma solução, que é drástica: preciso urgentemente de uma plástica. Grosseira massa, todavia confesso que Límen, dinamarquesa loiríssima que nos visitou na década dos 60s, apaixonou-se por mim e pelo nasal, talvez pelo nasal com maior paixão. Paixão e entrega: ela esfregava 60 vezes por dia o seu nariz no meu. Ah! querida Límen, faz frio em Oslo. Por que você não levou consigo, na pochete, o meu precioso nariz? Foi ela quem me deu uma edição de bolso bilíngüe dO nariz de Gogol que eu li numa sentada só e o reli nos dias seguintes. Depois que Límen viajou para o frio, só voltei a me apaixonar pelas gêmeas Coanas, tão parecidas que nunca soube em qual delas esfregava o nariz no perfumado cangote. Como o leitor tem pressa e está louco para saber o que houve com o meu nasal sensual, apresso-me em relatar-lhe o drama: no assalto do prédio da companhia de luz de CTV, em 1960, o ano da Límen, perdi o pedúnculo no Café da Esquina, quando um tiro de fuzil o transformou em grosseira massa ensangüentada, a tal ponto que fragmentos dela espalharam-se pelo balcão. A porta de aço tinha sido descida até o chão por causa do tiroteio lá fora e eu já havia tentado conter o sangue com camisa e paletó. Tudo ensopado de vermelho como se fosse beterraba com cenoura. Alguns prestimosos amigos me socorreram e eu fui levado para o Hospital Padre Albino, onde, naquele dia funesto, fui operado durante umas 5 ou 6 horas. Meu rosto ficou como bola de capotão. Quinze dias depois, quando retiraram a gaze que me envolvia rosto e cabeça, descobri que tinha novo nariz, bonitinho mas meio esquisitão.À noite, eu o deixo pendurado numa gaiola, longe dos gatos da casa e da vizinhança.  Nunca mais me esquecerei do nome do cirurgião plástico: Dr. Saul Chiezi.

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