A PESSOA E A SUA MÁSCARA

firenze

Sérgio Roxo da Fonseca

 

       Indaga-se frequentemente se a máscara confunde-se com a pessoa que a veste. Há um elemento semântico, portanto, histórico, que abre alguma porta para perseguir a indagação.
       Os teatros revelados durante a antiguidade greco-romana não tinham teto. É fácil compreender a enorme dificuldade imposta aos atores no trabalho de levar suas vozes até os expectadores, como, por exemplo, no Odeon de Atenas e no teatro etrusco de Florença.
       Criaram-se assim máscaras com extensão anormal para a configuração das bocas. Uma máscara para sorrir, outra para chorar que até hoje figuram dependuradas nas portas dos nossos teatros.
       As bocas desproporcionais eram assim transformadas em zona de eco para resolver o problema do som da voz humana. As máscaras eram o instrumento para levar mais longe a mensagem emitida pelos atores. As máscaras foram originariamente criadas “para soar”. Só os homens usam máscaras. Só os homens soam suas linguagens?
       As máscaras foram identificadas em Roma, segundo Silveira Bueno, como o meio de “per sonnarum”, razão pela qual foram batizadas como “personnarum”. Compreende-se assim que aí estão os alicerces para as palavras “pessoa” e “personalidade” que transmitem a ideia da necessidade de seu titular manifestar seus propósitos por meio de linguagens para a plateia distante, melhor dizendo, para as outras pessoas postas a sua volta. Umas mais distantes, outras mais próximas.
       Surge a palavra “pessoa”, aquela que faz soar.
       Mas seria possível a presença de uma máscara desprovida da capacidade de nada transmitir? Parece que sim. Nem sempre o som é da essência da linguagem audível, seja no teatro, seja na vida comum. Uns emitem seu pensamento silenciosamente por gestos; outros pela palavra escrita. Mas todos timbram um gesto discursivo para quem possa entendê-los.
       O melhor de todos os exemplos, com certeza, está na Língua francesa, para muitos considerada o mais lógico dos idiomas. A palavra pessoa em francês (“personne”) num momento significa “pessoa” propriamente dita; paradoxalmente em outros momentos espanta ao significar o seu contrário: “ninguém”.
       Quem está aí? Uma voz poderá ser escutada dizendo “personne” ou para dizer uma pessoa que ressoa a sua voz; ou para dizer ninguém que transmite o silêncio de sua solidão.
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