GAITA DE FOLE

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Sérgio Roxo da Fonseca

 

            Há uns dez anos visitei a catedral de Santiago de Compostela. Fazia muito frio. Do lado de fora da igreja, debaixo de um bom chuvisco, um rapaz tocava uma gaita de fole.

            Perguntei se era escocês. Meio zangado, disse que não. Era galego. Estávamos na Galícia espanhola e não na Bretanha. A gaita de fole, acrescentou, era um instrumento musical criado pelos celtas, agora galegos, não pelos bretões. Esclareceu que os galegos civilizaram a Bretanha, tanto que um dos seus países passou a ser chamado Pais de Gales, ou seja, Pais dos Celtas. Foram os celtas, melhor dizendo, os galegos, que levaram a gaita de fole para a Bretanha. E não o contrário disso.

            Meio surpreso agradeci a aula recebida, ressaltando ao jovem músico que a Língua portuguesa era também fruto do casamento do espanhol com o galego, ou seja, com a Língua dos celtas. Pudera! Portugal surgiu ao Norte das terras lusitanas, nas proximidades de Compostela. Tanto que, em busca da soberania portuguesa, as pessoas nascidas na região do Porto enviavam as melhores carnes para os seus soldados que morriam lutando contra a Espanha daquele tempo.

            O pessoal do Porto comia as tripas dos animais para manter suas tropas, até a Batalha de Aljubarrota, onde hoje se encontra o célebre Mosteiro da Batalha, um extraordinário templo gótico, nas proximidades de Fátima. As pessoas nascidas na cidade do Porto até hoje ficam orgulhosas quando chamadas de “tripeiros”. Lá “dobradinha” chama-se “tripas a modo do Porto”, documentando Aljubarrota. Fernando Pessoa confirma em versos.

            Mas a gaita de fole cria surpresas históricas. Ao menos para mim. Recentemente visitei a Jordânia e nela fui levado até suas ruínas arábicas, bizantinas e romanas.  Em Jerash, a antiga Gerasa, há um teatro romano que documenta o período no qual os nativos conviviam bem com o mundo ocidental e vice-versa. Então construíram, em 129 depois de Cristo, um enorme arco para receber o imperador romano Adriano. O arco monumental ainda está lá para registrar a antiga e nem sempre nova amizade.

            Na vizinhança fui conhecer o Teatro do Sul, construído em 92 depois de Cristo, considerada a obra mais bem  conservada da civilização.  A visita envergonha visitantes de países que destroem diariamente os marcos de suas história. De sua pobre história!

            O Teatro do Sul foi e é destinado a receber três mil pessoas, mais atores e orquestra. Foi erguido pelo arquiteto Zíbios, mantendo-se ali até hoje as dependências do seu estúdio.

            Para minha surpresa, no interior do Teatro fomos recebidos por um grupo de músicos tocando gaita de fole. Mas a gaita de fole não é obra dos galegos? Não, responderam. A gaita de fole foi revelada pelos árabes. Os celtas estiveram também naquelas lonjuras e espalharam o instrumento e sua música por onde passaram. A gaita de fole é celta ou arábica? Ou escocesa, quem sabe? Nós, os amadores, condenados a viver no mundo da dúvida, podemos crer que se trata de um extraordinário artefato musical criado pelos homens. Ou melhor, pela civilização humana.

             Basta? É possível que sim. Alguém poderá dizer não. Argumentando com o incomensurável número de deuses da antiguidade que, consabidamente, amavam muito mais a música do que nós.

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