Úlceras demais para esquecer

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Luiz Roberto Benatti

A.

A úlcera não é o desejo. A úlcera não é sequer a flor do desejo. Ao meio-dia, na cidade, um fragmento de úlcera deita-se no calçadão. Exposto ao sol, ele se gasta como vela derretida. Não me refiro à úlcera dos mendigos. Ao passar do verde-musgo para o sulferino, essas figuras maquiadas já não assustam mais as crianças, definitivamente acostumadas com a fábrica de horrores da televisão. É que falta muita habilidade ao artista. E nesse caso a ferida era apenas um posto de pedágio ao qual eu devia entregar minha taxa diária de piedade ou ficar mal comigo mesmo. À noitinha, ou quando ameaça temporal, lá vai a úlcera, juntamente com o seu depositário, para o banho, a refeição e o sono. A jornada de trabalho terminou. As máquinas de ulcerar estão paradas e seus agentes cruzaram os braços. Amanhã a piedade recomeça. E a úlcera também.

B.

A úlcera não é fruto de enxaqueca. A úlcera é curto-circuito interrompido, cujo fogo, extinto, conecta o desejo à morte do desejo. A enxaqueca é marca de impedimento, cartão amarelo com que você, falso juiz e jogador relapso, se presenteia. A enxaqueca é menos que um nocaute. Todavia, ela cumpre a missão: deslocar o centro do problema. Com ela, você veste o paletó da abulia, olha sem ver, aguarda o trem seguinte, dá de mão beijada minhoca aos peixes, cola os olhos de ausência no mesmo ângulo da janela do ônibus em movimento. E vai sem ver. E cai sem doer.

C.

A úlcera é construção especializada em hierarquias. Mecanismo. E, como todo mecanismo, a úlcera é meio vicária, meio descartável. É como o bilhete de loteria em cuja combinação numérica você projetasse certa vocação pitagórica, o espaço de sonho. Para que o bilhete triunfe, você emenda a data de nascimento com o número do apartamento em que mora, o final do número da carteira de identidade, a dezena da chapa do automóvel que passa, o número da conta bancária. Toda úlcera é teleológica, mas o que ela quer está muito mais além. A úlcera é sempre plus ultra, plus úlcera. Ao fazer da prancha do presente trampolim, a úlcera atira-se ao mar e fura a onda ao meio no momento em que outra prancha se direcionava para o mesmo ponto marítimo. A úlcera não nina o prazer da solidão nem se encanta com banho de mar coletivo. A úlcera é de ontem, mas sonha com o amanhã. No mundo futuro da úlcera haverá três bilhões de andróides. E nenhum sol.

D.

Como as crianças e os gatos, a úlcera mete o focinho no leite, lambe aquedutos, dialoga com o agente ácido que lhe corrói piso, forro, móveis e paredes. O sempiterno ideal da úlcera é deixar embalar-se no colo adocicado da infância. Na aurora do mundo, a úlcera continuaria a mentir para si mesma dizendo que o mundo é seu, somente seu e de ninguém mais. A úlcera não tolera o elevador e, estando no campo de futebol, apunhala-se três vezes a cada gol do adversário. A úlcera pensa em desventrar a esfinge com o firme propósito de recuperar a chave do segredo do enigma. Revelado o mistério, no entanto, a úlcera iria lamentar até à parusia a vida tediosa em que se meteu por não suportar enigmas.

E.

Tempo, diz a consecução. Espaço, enuncia o desejo. A úlcera, no entanto, eternamente amuada, multiusurária, fica entre querer já ou afastar-se em definitivo de qualquer ganho mergulhando-se num incorruptível Nirvana. Impaciente, a úlcera desconstrói planos e metas, vai à ré rumo à concha feita de surdez e salsugem. A úlcera sofre de psitacismo e rói a base do pedestal. Apodítica, permanece fria como um cardeal de Goya. Vista de perto, mal esconde o ar de decomposição dum alto prelado de Bacon.

F.

Como chamar a minha úlcera, se ela é selvagem e berra? se ela me ferroa e me lanceta, impiedosamente, da manhã ao fim do dia? se ela é imprevisível e parece assustar-se até mesmo com frágil passarinho que de repente alçasse vôo? se ela vê no álcool a cascavel venenosa feita de música, encantos e perigos? se ela investe contra o vermelho sanguíneo do pôr do sol? se ela não se deixa pear nem mesmo para a ordenha pacífica? se ela se desdobra em renovadas feridas como se fossem crias concebidas no fundo das entranhas? Eu sei como chamá-la: a minha úlcera, agora e sempre, deverá atender pelo nome de vaca colorida!

G.

Com dor me deito, com dor me levanto, com a velha úlcera e todos os santos. Ou demônios. E, logo mais, de pé, já recomeça o meu dia a arrastar-se como se eu tivesse de empurrar camas, cômodas, guarda-roupas e espelhos habitados por fungos para o alto da colina. O meu dia, secular, demora-se como a areia da ampulheta de gargalo estrangulado. Mas não a minha úlcera, que, caçada pelo tédio, morde as paredes de seu nicho, rasga o véu que protege o leito, uiva para o negrume dum céu derruído, muda-se em monstro disforme, meio homem, meio lobo, em cujos olhos leio assustado: Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate.

H.

Por cima do balcão, aspiro o cheiro forte do inimigo. Ele me acena com a campainha ferroviária, manobra com destreza a chave de mudança dos trilhos, põe o trem em marcha, arremete para a minha direção obrigando-me a executar rápidos movimentos de fuga. Graças a essa encantadora dança diária, propicio à minha úlcera variado espetáculo, ao mesmo tempo em que lhe previno bocejos e roer de unhas.Assim, o tempo todo divirto a velha ferida, preparo-lhe o prato com  que se refestela e mantém aquecido o dolorido minifúndio. A úlcera não precisa contratar gente mal encarada para executar trabalho sujo. Valente, ela vai sozinha à luta. E triunfa sempre. E sapateia no túmulo dos vivos. E berra como baleia fisgada à traição.

I.

Acordei-me pornográfico.Fui ao banheiro. Assisti a  todas as abluções e excreções de minha úlcera.Demorei-me em vê-la emplastar-se de carmesim. Ostentando enorme abertura de lado na saia muito justa, Gilda, minha úlcera, ficou fenomenal. Prendi-a pela cintura, trouxe-a para junto de mim com ímpeto, abri-lhe a camisa transparente, mordi-lhe o bico dos seios perfumados. Ela tombou de costas na cama macia. Depois que fizemos amor com desmedida paixão, eu a vendi ao dono do circo. E desde o ano passado, todas as noites, minha úlcera é serrada ao meio por um mágico pálido e misterioso. A platéia atenta fica de coração batendo. Ninguém respira. Tudo termina num grito terrível, quase inumano.O circo delira e vem abaixo. Em meio à fumaça colorida do gelo seco, diviso o esgar de minha úlcera, recortada contra um fundo vermelho como se fosse o ideograma do Caos.

J.

Fístula, espinho interno, eritema, prímula de dor florida o ano todo, acicate, lixo cósmico, postigo, mortal forma de Arte, pulchra et bella, úlcera, cerúlea, luz do céu, mel e fel, leoa célere & sempre irreal.

 

 

 

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