Caderneta de campo da zona

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Luiz Roberto Benatti

A coisa mais difícil de ser encontrada na zona, em nossos dias, é o gigolô clássico: aquele cara alinhado dos pés à cabeça, incapaz de reclamar de estômago vazio ainda que esteja com o seu nas costas, de soltar pum na casa da Joana. Ele foi e será sempre  o homem do sapato bicolor lustrado com capricho, chapéu panamá tombado de lado, pente flamenco no bolsinho do paletó, gotas de perfume atrás da orelha,  terno branco de linho, camisa de seda bem passada, grosso anel no dedo mínimo. Nada de caveira.

O gajo era pequeno, magro, bigode à Clark Gable, sem  tênis de cadarço desamarrado, boné amassado, calça jeans rasgada no joelho ossudo, camiseta dos Racionais. Ele preferiria tomar soda cáustica a ouvir rap às 3 da manhã.

Um gigolô competente ficava bêbado, como Humphrey Bogart, ou Hemingway, depois do 11º. daiquiri, mas você jamais o viria vomitar na calçada ou atrás do banco da praça. Nos anos 50s, os últimos gigolôs de Catanduva foram  assíduos freqüentadores do Bar São Pedro, da Praça da República, ou dA Paulicéia, da Rua Brasil, ou do grande bilhar ao lado dA pérola oriental.O Ronaldo dos jogadores de sinuca era o famoso Carne Frita.  Às 10 da manhã, Benta, a manicure, fazia-lhes as unhas no Salão Central, ao lado dA Paulicéia.

Cigarro na ponta do lábio fino, por baixo do chapéu, o gigolô tinha os cabelos escuros assentados com Glostora: nele não despontara o mais mínimo sinal de cabelo branco. A aposentadoria não foi votada para o gigolô. Jamais poderíamos saber se um gigolô autêntico cultivava caspa: ele não vestia terno escuro.

Como todos os mortais ou bicho do mato, o gigolô tinha um passado, mas ninguém sabia de onde viera, quem tinham sido seus pais, onde havia feito escola primária nem se algum dia puxara cabo de enxada. Gigolô que se prezasse tinha a palma da mão coberta por pele lisa de bunda de  bebê.

O gigolô era lacônico e jamais erguia a  voz: com as fêmeas, sussurrava e, com os valentões ou pilantras, chamava a um canto e amassava-lhes o nariz. O gigolô mais destemido levava no bolso interno do paletó navalha afiada. Juram em cruz que era capaz de abrir sem piscar nem tossir  o baixo ventre dum desafeto e que o delegado de polícia, seu amigo, por um tempo, o manteria escondido no mato, até que ele escapasse ao flagrante.

Ninguém até hoje soube dum gigolô que tivesse  envelhecido ou então morrido no emprego. Câncer? Nem pensar. Tuberculose ou cirrose hepática, quem sabe. Além disso, era um cavalheiro incapaz de dizer “Sua sacana!” à amante. Ao contrário, com contida veemência, ele repetia; “Cachorra duma figa!”, expressão doméstica  quase carinhosa.

Diocleciano, Eleutério, Ercílio, Ferdinando, Gumercindo, Juvêncio, Arlindo,  Miraflor, Osborne, Pancrácio ou Viramundo eram os nomes conhecidos dos antigos e inesquecíveis gigolôs. É pena que  não se façam mais  zonas ou criaturas exponenciais como os gigolôs de  antigamente!Afinal de contas, quem, em nossos dias, conhece de cor todas as músicas de Nélson Gonçalves? Boemia, aqui me tens de regresso. Mia e não êmia, porque o gigolô é a criatura da hora dos gatos pardos.

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