O governo distribui mal suas escuridões


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Luiz Roberto Benatti

A maioria dos nomes  dos distritos da Bulgária são impronunciáveis por falantes de Língua portuguesa. Experimente: Blagoevgrad, Khaskovo, Stara Zagora, Veliko Turnovo, Vratsa.Todavia, isto não quer dizer que você não possa conhecer sua capital, Sófia, velha para boné. Eleita, Dilma Rousseff ou Russév tudo deveria ter feito para aproximar os búlgaros dos brasileiros. Seu pai Pétar Russév é búlgaro naturalizado brasileiro. Depois de Paulo Rónai e antes de Nélson Asher, a Bulgária já havia acenado para nós e pedido para entrar e bater demorada caixa com o fabuloso Campos de Carvalho, autor de O púcaro búlgaro: surrealismo de primeira num país surrealista que pouco fez para cultivar elevada literatura piadística ou de nonsense. Campos de Carvalho foi ousado e, no momento certo, encontrou editor em Ênio Silveira. “No alto da Gávea, não sei por que, a escuridão é mais espessa do que nos outros bairros; outro dia fui visitar Ipanema e vi que sua escuridão é quando muito uma escuridãozinha: podia-se até enxergar a cabeça do fósforo antes de riscá-la. O que faz o governo para distribuir tão mal suas escuridões é o que ninguém sabe, e o que Deus também faz, muito menos.” O livro foi publicado em 1964, ano de triste memória para quase todos nós. Pedro Rousseff viveu na Bulgária com Elisaveta Bagriana, mulher cultíssima e autora de poesia de elevada estatura. Pedro  foi comunista e freqüentou os círculos literários búlgaros pelos anos 20s. Dilma nasceu em 1947, quando Elisaveta andava pelos 54 anos. Campos de Carvalho editou O púcaro búlgaro em 1964, quando Dilma tinha  17, cabeça saturada de idéias revolucionárias contra a ditadura. Em 1969, momento difícil para Dilma, Elisaveta  ganhou em Roma medalha de ouro da Associação nacional de poetas. Trata-se duma poesia de requintada feminilidade, como foi a prosa de  Alexandra Kollontai, autora russa de Red love ou Amor vermelho publicado em 1927. Elisaveta provavelmente o leu aos 34 anos. “Vassilissa was able to read and write well; she had learned from her father, a compositor. She read Tolstoy and liked his work.” Vassilissa, a protagonista de Kollontai, talvez se pareça um pouco com Elisaveta, mas não com Dilma, a não ser que as escuridões do 64 ainda não tenham se dissipado. Alexandra Kollontai ficou ao lado de Lênine na disputa do POSDR, o Partido operário russo da socialdemocracia, em cujas atividades o PSDB talvez tenha-se inspirado. O partido rachou-se mas Lênine e seus seguidores tornaram-se bolsheviques, isto é, maioria. Seria estranho que o PT viesse a tornar-se maioria. Estranho e contraditório, já que o PT é, de fato, um balaio de gatos de todos os matizes políticos, cujas idéias, economicistas, são semelhantes às dos mencheviques. Dilma não se parece  também com Kollontai.

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