Railroad & co.: fumaça, suores, glória e agonia

Luiz Roberto Benatti

Em 1910, a Railroad & co. inaugurou a primeira versão da estação ferroviária de CTV, mais tarde, em 1919, incendiada por Aristides Procópio de Oliveira, Carlos Machado e um bando transtornado de rapazes da classe média que desceram a Rua 3, atual Rua Brasil, cantando A Marselhesa, em Francês. Num único dia, queimamos a República mal nascente (Rua Rio de Janeiro) e os laços precários com Portugal e a monarquia (o pontilhão de madeira da Rua 7 de Setembro). Os rapazes aguerridos defendiam a fumaça da Baldwin, o direito ao suor na lavoura de café, a glória dos miliardários. Foi nesse período que a musculatura da cidade começou a avolumar-se: o comércio agitado da Rua São Paulo clonou-se na Rua RJ e na Praça 1º. de Maio, e foi tão vigoroso que alcançou, por novas clonagens,como a do Largo do Café, atual Praça da República,  as décadas dos 50s e 60s. O café gerava riqueza, emprego maciço, comércio, indústria, transações bancárias, edificações, escolas, hospitais, moda, teatro, cinema. A cana de açúcar? No momento, importamos etanol de milho dos EUA, e a cana não redistribui parte mínima que seja de seus dividendos com ninguém.Em 1908, o País tinha 16 mil quilômetros de ferrovias, 24%  dos quais em SP; entre 1901 e 1910,exportamos 130 milhões de sacas de café vendidas a 187 libras esterlinas a saca: o Brasil tinha 17 milhões de habitantes, dos quais 11 milhões viviam na zona rural; comíamos 20 quilos de carne bovina per capita num ano e o animal era abatido em campo aberto: só se conheciam dois tipos de carne: a de primeira, do traseiro, e a de segunda, do dianteiro. Estamos na era da ninguènzada. Quanto à remoção dos trilhos da EFA para algures ou nenhures, fico no meu canto como pássaro na muda, porque quem nasceu para limão cravo nunca chegará a ser jacaré. O trem vai voltar. Não sei quando e onde,mas isto vai-se dar,  a não ser que, em  nossa caminhada de costas,  arrebentemos  a canela na Ladeira da Desmemória. Aí vão algumas imagens para os diletos amigos que gostam de degustar os tempos de poder e glória, aborrecidos  com a agonia dos dias que correm.

 Um pé

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