O ouro e o 32

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Luiz Roberto Benatti

A revolução constitucionalista deveria ter sido repensada como ocorrência bélica que andou à ré, quando muita gente, ingênua ou cheia de esperteza, pôs fé no pesadelo de desatrelar SP do corpo da Nação, ou então poder enfrentar a marinha, o exército e a aeronáutica de Vargas e triunfar. Quanto mais estapafúrdia a idéia, tanto mais poderá vir a ser aceita por adeptos do fragor das batalhas e a carnificina. Davi e Golias: em lugar da funda, matraca do vendedor de doce de gergelim; em lugar da metralhadora, ruído do motor de motocicleta, provavelmente sucata alemã da guerra. Como o nosso imaginário bélico não soube reproduzir a guerra norte-americana da secessão, muitos de nós foram para Cunha, certos de que, do outro lado do túnel da Mantiqueira, alcançaríamos Resende, para depois invadir o Rio de Janeiro. Saudosos dos antigos dias de glória e café, os campineiros empobrecidos levaram nos ombros os fuzis belgas, há décadas em desuso. O 32, como o 64, nasceu da leitura dos búzios num escritório da classe rica paulistana e, por osmose, espalhou-se pelo Estado, em cujas pequenas e médias cidades recrutou músicos, padeiros, funileiros, enfermeiras, jogadores de futebol, brancos, negros e pardos, certos de que iríamos lutar não só para resistir à ditadura de Vargas, como para dar a São Paulo um grande destino. Ex-ministro de finanças, Getúlio adiantou o relógio atrasado da economia capitalista. Uma coisa é estufar o peito e cantar vitória antes do tempo, outra é saber quem irá servir de bucha de canhão. Como tudo custa dinheiro, de repente um cérebro privilegiado – Pedro de Toledo, talvez – reinventou a pólvora para comprar pólvora e disse que teríamos de arrecadar alianças de casamento, trocadas que foram por anéis de latão, onde se gravou frase digna dos acontecimentos sublimes: “Doei para o bem de SP”, quer dizer, meu casamento pelo meu passamento. Uma aliança, duas, cem, 7o mil, ou 450 quilos de ouro, contabilizados pelo Tesouro do Estado. Total em moeda: 6.648:499$010 que se lêem como seis mil e seiscentos e quarenta e oito contos quatrocentos e noventa e nove mil e dez réis. Caso você converta isso tudo para o atual valor do grama de ouro de 18 quilates, encontrará a bagatela de 3 milhões e oitocentos mil reais. O que não se gastou com a batalha, virou o “Edifício do ouro para o bem de SP”, erguido no Largo da Misericórdia, logradouro de nome lapidar para o 32. A construção é kitsch, portanto reveladora da mentalidade retrógrada tanto dos entusiastas quanto dos descrentes que se mantiveram quietos, ainda que pudessem ter criticado o desatino. As firulas arquitetônicas à esquerda foram inspiradas nas alianças. Se o Vale do Paraíba foi o nosso Marne ou palco de batalha do 32, alguém de Catanduva lutou em Cunha ou atravessou o túnel da Mantiqueira? Trouxe fotografia? O que é que Antônio Ortega fazia pelos lados de Casa Branca? Foi enterrado em cova rasa? Quem o exumou? Caso não tenha sido morto por tiro, que doença do fígado o matou? Fígado gorduroso? Carência alimentar, já que era pobre e estava desempregado? Sofria ele de cirrose hepática? Pelo menos para nós o 32 foi aquilo que jamais se deu.

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