LIVRO E FOLHA DE LIVRO

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             Sérgio Roxo da Fonseca

 

       Suponho que a palavra converteu-se no documento mais antigo da história do homem. Antes do advento da palavra os fatos dissipavam-se  com mais rapidez do que pirão de galinha velha.

       A Língua portuguesa falada no Brasil foi composta por um número muito grande de idiomas. A história de suas palavras quase sempre, mas nem sempre, identifica sua origem. Grandes tropeções sofremos com os “hetero-semânticos” ou, como querem outros, com os “falsos cognatos”.

       O adjetivo “esquisito” no Brasil significa tudo o  que é incomum e muito ruim. “Esquisito” era o nome do pior salão de baile da minha terra. Calculem o seu significado!  Nos demais idiomas neolatinos, “esquisito” ao contrário significa o que é incomum e muito bom. Na Espanha um vinho esquisito está para lá de bom. Encontrei um perfume francês chamado “esquisito”, ou seja, “esquis”.

       O adjetivo “roxo” significa “vermelho” nas extensões da latinidade. O sangue do toureiro Ignácio era “rojo”. Na Itália há um vinho chamado “roxo escuro”. O francês universalizou o vocábulo para batizar a tintura usada pelas mulheres para avermelhar o rosto, o “rouge”. Em português diversamente roxo não é vermelho. Perguntei para um espanhol qual é o vocábulo na Espanha que transmite a ideia da cor roxa. Amorado, respondeu, ou seja, a cor da amora.

       Sérgio Buarque de Hollanda, destacando o nome dos dois mais notáveis tradutores brasileiros da sua época, Mário Quintana e Agenor Soares de Moura, revelou alguns dos seus tropeções, ou seja, tropeções deles Até eles!. De se destacar que o mineiro Agenor escreveu um extraordinário livro sobre a matéria: C.T. Palavras. Tudo por conta dos falsos cognatos.

       No passado imemorial o conjunto das palavras gerou a necessidade de compor um objeto, levando-o à pia batismal. A composição recebeu o nome de “livro”. E o que transmite a história da palavra “livro”?

       O notável Deonísio da Silva espanca o mistério: “a palavra “livro” é descendente do Latim “liber”, ou seja, o tecido condutor da seiva elaborada ou orgânica dos vegetais vasculares; “livro”, em sua forma “libru” passando pelo francês “libre” e pelo italiano “libro”, segundo nos ensina em suas etimologias, Santo Isidoro, arcebispo de Sevilha e doutor da igreja, a humanidade primeiramente escreveu em folhas e cascas de árvores, advindo desse costume vocábulos como “folha” e “livro”. Apesar da origem da escrita perder-se nas brumas do tempo, e os símbolos escritos existirem desde 8500 anos antes de Cristo, tem-se como o livro mais antigo do mundo a “Bíblia” composta por Gutenberg, impressa em Mainz, na Alemanha, por volta de 1454 por Johann Henne Glensfleisch Gutenberg, nascido entre 1394 e 1399, morto em 1468. O primeiro livro brasileiro foi “Música do Parnaso”, poesias de Manoel Botelho de Oliveira, impresso em Lisboa, em 1705”. Esta é uma pequena síntese da extensa história da palavra “livro”.

       Jorge Luis Borges escreveu que toda a água do Nilo está dentro da palavra “Nilo”. Como todas as rosas do mundo estão contidas nas letras que compõem a palavra “rosa”. Tanto para ele como para mim. Mergulhando nessas águas atrevo-me a concluir que todas as folhas dos livros estão contidas nas letras compostas do vocábulo “livro”.

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