O incêndio de 1919 da Railroad & co./EFA

001

 [Imagens raríssimas: o  prédio inaugural  de  1919, cujo frontão pode ser visto na atual versão, e os armazéns incendiados]

 Luiz Roberto Benatti

 A  desmemória que recobre a cidade com peles de  ferida e lacunas  históricas responde por gerações perdidas pelas  ruas como se fossem zumbis.Perderam-se de si mesmas e não se reencontraram. Perde-se o pai do filho e o filho do próprio filho. Não se vê no corpo da cidade  o nome de Ernesto Ramalho, nosso prefeito inaugural, dado a um bairro, beco, rua ou praça. Recomendei ao ex-prefeito que desse à simpática curva do São Domingos, na altura dos bombeiros, o nome de Remanso Ernesto Ramalho e li em seu rosto, como resposta, a ruga do espanto. Ernesto nos convidou para visitar outra cidade, nós fomos mas não encontramos ninguém. Prova de revezamento sem bastão. O incêndio da velha estação da Railroad & co. foi ousado e se marcou pelo colorido de época, período que jaz adormecido num livro de páginas amarelas ressecadas.Quem o reencontrar que dele resgate o que fomos. O espírito de 1914-1918 nos movia.  O pai do historiador Brasil Procópio de Oliveira, Aristides Procópio de Oliveira, chefiou um grupo de rapazes, dentre os quais o jovem telegrafista Carlos Machado, além de Ramalho,  que desceu a Rua 3, atual Rua Brasil, e  dirigiu-se ao prediozinho baixo disposto a dinamitar a estação.Luxo que se perdeu na cartilha  da velha escola, eles cantavam A marselhesa em Francês.  A banana de dinamite não detonou e os moços atearam fogo no prédio, cujas chamas tudo consumiram. Logo a seguir, puseram fogo  também  no velho pontilhão de madeira da Rua 7 de Setembro. Assim, num único dia, queimamos a República mal nascente (Rua Rio de Janeiro) e o monumento  dos laços rompidos com a corte portuguesa ( o pontilhão da 7 de Setembro). Os moços foram presos, acareados e levados a julgamento, em SP,  no qual Ruy Barbosa defendeu a companhia ferroviária.Ruy era devoto tanto do Socialismo utópico quanto do Capital emergente. Como adoramos cultivar o sublime, para nós Ruy foi aquele sujeito que falou na grande vergonha de ser brasileiro, quando, de fato, foi advogado e possivelmente lobista da Southern Brazil Lumbert & colonization co. inc., riquíssima empresa madeireira pertencente ao grupo de Percival Farquhar, dono também da Railroad & co.  Ainda em nossos dias, Ruy seria um tipo bem atualizado: dizia proteger os pobres contra os exploradores, enquanto bebia champanhe com os miliardários. Os moços aguerridos foram anistiados, mas não Ruy que, na Catanduva daqueles dias, levou de capota na eleição presidencial. Votamos em Epitácio Pessoa. A vingança é prato que se come frio. A rapaziada tomou as dores dos fazendeiros produtores de café, cujas sacas acumulavam-se nos armazéns da estação, com prejuízo para uma economia incipiente que dependia do café, em cuja Fazenda Moreira Giuseppe Sartori plantou 60 mil pés.Sartori tinha sido capataz de uma das inúmeras propriedades  de Henrique Dumont,  o pai do aviador.  A Fazenda Moreira fez da Rua São Paulo nossa Rua Santa Ifigênia. Patriotismo e Socialismo, além da frustração por não termos ido para as trincheiras européias da Primeira grande guerra, alimentaram os moços naqueles dias tão distantes como se habitassem galáxia inacessível. Hoje, com voz desafinada, ao arrombar agência bancária, a moçada cantaria “The house of the rising sun”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s