Warley Agudo Romão, o construtor

Luiz Roberto Benatti

 

O prediozinho, bem modesto, da prefeitura inaugural de CTV foi alugado do Sr. Chaib por Ernesto Ramalho e ficava ao lado do antigo Cinetheatro São Domingos, no Largo do Jardim ou do Café,atual Praça da República,  centro político e republicano da cidade que se fez a partir dos anos 30s. Até os 30s, éramos pobres como Jó e, porque  não nos demos conta do significado da reforma econômica de Getúlio Vargas que se dispôs a adiantar o atrasado relógio de bolso da economia capitalista do País dos coronéis, embarcamos no malfadado 32 que prolongou por mais alguns anos nossa indigência econômica e cultural. O 32 foi um movimento cujo rastilho de pólvora nasceu no paiol dos grã-finos de SP, como, mais tarde, o malfadado 64. Escolhas erradas conduzem aos ínvios caminhos. Em 1921, Minguta foi velado em câmara ardente no local e, na década dos 50s, Borelli ali mantinha escritório de compra e venda de automóveis. Borelli fez-se politicamente na praça, com Chaim, avatar de Minguta.Quando menino e, mais tarde, na adolescência,  Warley passou por ali inúmeras vezes.Warley, desde cedo, sintonizou-se com o que os alemães do romantismo chamaram de Zeitgeist ou espírito da época, do tempo, ou então sinal dos tempos, razão por que ele se aproximou bastante do clima intelectual (no sentido de mentalidade) da cidade. Apesar de ter estagiado no escritório de advocacia de Alfredo Buzaid,em SP,  não nutriu gosto pelo Integralismo tardio.Warley sabia que a prefeitura era como um andarilho ou planária  que, do Largo do Café, arrastou-se até a Pará com a Paraíba, para depois albergar-se no antigo Liceu Rio Branco/FATEC.Warley foi bom aluno do velho Barão,época em que os colégios valiam por faculdade, vestida ainda com a capa da escola que preparava para a vida adulta o homem de inteligência. Publicou livro de contos e foi jornalista correto.  A primeira administração de Warley, salvo melhor juízo, beirou a exemplaridade. A segunda enveredou pelo tango argentino (talvez, a Cármen de Bizet) cujo resultado foi o predomínio do coração sobre atos de razão.Tortuosos são os caminhos de Eros.  Ernesto Ramalho,Stocco, Borelli e Warley foram  criaturas do Zeitgeist de Catanduva, o que implica em dizer que neles havia ideal de vida, apego à cidade e comportamento ético.Nas viagens para a Capital, ele se hospedava na casa da mãe, porque Warley jamais se orientou pela discutível moral do nouveau riche.  Em 1982, há 30 anos, portanto, último ano do primeiro mandato, Warley assinou a Lei no. 1892 de compra de pá carregadeira por Cr$ 9.000.000,00. Nesse período, a inflação foi diária, acintosa e tão avassaladora, que já não sabemos mais ao certo o real significado desses números. Por pouco não empatamos com a surreal situação monetária da Alemanha nos anos 30s do século XX. Em 1920, por exemplo, o pão custava  1 marco e, três anos depois, em 1923, 200 bilhões! Somente quem esteve lá pôde avaliar a importância duma batata como refeição única. Enquanto a pá carregadeira faz ou fez o serviço a que se destinava, recordemos o mais ousado dos gestos de Warley: como o mágico que, num movimento rápido do lençol, desaparece com a moça que o acompanha, diante de nossos olhos espantados, Warley sumiu-se com o Parque das Américas, onde mandou erguer o conjunto da prefeitura, a câmara, o terminal rodoviário  e o Fórum . Bila e Luís de França Rolland assinaram o projeto. Não soube se Warley e os Rolland deram-se conta de que o fantasma de Ernesto Ramalho, dia após dia, ficou por ali, de olho na obra erguida sobre o antigo charco do Japurá/São Domingos, num terreno de turfa. Depois dessa primeira ousadia, Warley ainda teve fôlego para mandar erguer o teatro pelos lados do Colégio Ressurreição.Pela Lei no. 1572, de 10 de junho de 1977, Warley solicitou ao banco empréstimo de Cr$ 4.500.000,00 para tocar o  projeto. Dez meses depois, em 5 de abril de 1978, o valor do primeiro empréstimo foi revogado e corrigido para Cr$ 9.000.000,00, o custo da pá carregadeira. Por fim, em 3 de julho de 1979, pela Lei no. 691, Warley tomou mais Cr$ 4.000.000,00 emprestados para concluir o conjunto arquitetônico. Nove mais quatro é igual a treze ou então uma pá carregadeira e meia!Por fim, os catanduvenses puderam saber o custo duma obra importante cuja grana  não foi para o ralo, não  virou suco de laranja nem nos pendurou de cabeça para baixo,como Benito Mussolini e Clara, a amante, num poste!Como advogado, ele poderia ter trabalhado na Corregedoria geral da União, se esse ministério existisse naqueles dias. E,quando lhe perguntarem o preço da obra, responda na lata: uma pá carregadeira e meia!Olhe para a cidade, caminhe a pé por ela,observe nas casas mínimos detalhes arquitetônicos. CTV é imperial e republicana: no Higienópolis e imediações,você localizará a primeira cidade, a cidade velha no bom sentido: ali se edificaram residências de modelo europeu do séc. XIX.Estávamos nos anos 20s ou 30s. Atravesse o Rio São Domingos,suba a antiga Rua 3/Brasil, percorra com os olhos e o coração a Catanduva republicana. Dois prefeitos foram edificadores: Antônio Stocco/Antônio Zaccaro e Warley Agudo Romão/Luiz de França Rolland e sua mulher, Bila de França Rolland. O que se fez feito está, porque reforma é rearrumação, conserto, sobrevida. De que nos adianta gritar para os pósteros que fomos bons, se ninguém mais tem competência para profetizar, às 3 da tarde,  o que comemos no almoço?

[A 1ª. imagem é a do Parque das Américas, com 3 seções, porque 3 são as Américas: o leitor mais jovem deverá orientar-se pelo prédio do Hotel Presidente, à direita, mais ou menos no fundo da foto; a 2ª. é de 1977, início da construção do edifício da prefeitura e a 3ª. é de 2015.Se alguém quiser conversar com os amigos sobre prefeito construtor, cite, sem medo de errar, WAG, e caso o questionem sobre qual administrador ocupou-se com competência com o social não hesitem: chama-se Geraldo Vinholli.}

 

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