O vaso sanitário de Marcel Duchamp [versão ampliada]

[Como este artigo é o mais lido do blogue www.catanduvanaoesquece.com, resolvi acrescentar-lhe duas ou três novas informações.]

 [Em tom escurecido, o prédio da sociedade teosófica, da Rua Rodrigo Silva, em SP]

 Luiz Roberto Benatti

 

Ao expor, em 1917, um vaso sanitário como se fosse obra de arte, Marcel Duchamp o assinou com o pseudônimo R. Mutt seguido da data de “concepção da peça” – 1917. É possível que até hoje cultores e críticos da invasão das galerias pela materialidade do trato fecal, não se  tenham dado conta de que Mut é a palavra alemã para vira-lata, que Mutt significa tenho coragem e Mutt(e)R quer dizer mãe, enfim, o que ele quis dizer, de maneira quem sabe sutil, foi que “Tenho coragem o bastante para dizer que minha mãe foi um vira-lata”. Sigmund Freud intrigou-se bastante com a relação simbólica entre guerra e fixação anal. Dois anos mais tarde, Duchamp voltou a atacar a figura materna, agora como  a Mona Lisa de Da Vinci: ele a chamou de L.H.O.O.Q., em 1919. As letras remetem a Ela tem ou sente calor no fiofó. Ao acrescentar-lhe um bigode, Marcel masculinizou a Gioconda. Menino precoce de família rica e ilustrada, Duchamp oscilou entre o xadrez, a Matemática e a Arte, confrontando-se, porém, com a produção impressionista que ele dizia dirigir-se ao olhar (e não ao cérebro, talvez). Pelos 14 anos, ele usou em cartões-postais os puns ou paronomásias, trocadilhos explorados  também por Shakespeare ou Machado de Assis. Exemplo de paronomásia é a frase “Caesar salad” ou “Salada à César”, cuja pronúncia, escandida, remete a “Scissor salad” ou salada própria para o cliente cortar a língua. Ao extremar o uso da configuração matemática à Arte, Duchamp compôs Jovem triste num trem, composição quase abstrata em que ele tentou fixar a idéia de movimento e elasticidade do corpo num veículo veloz. Conquanto se discuta se, de fato, Duchamp chegou a expor o trono, ou se o conhecemos apenas pela fotografia de Stieglitz, o artista, mais tarde, fez dele novas cópias, uma das quais vendida à Tate Gallery por 1 milhão de libras. Hoje, a peça vale 3 milhões e 600 mil dólares. Na época de sua produção, Duchamp era amante de Beatrice Wood, moça muito rica que foi estudar pintura em Paris. Dizem que ela e Marcel orquestraram todo o barulho necessário ao amplo conhecimento do vaso. Beatrice era muito bonita e, no filme Titanic, ela inspirou a personagem  RoseDeWitt Bulkater, por quem o mundo se apaixonou. Em 1947, ela se mudou para Ojai, na Califórnia, onde conviveu com J.Krishnamurti, que esteve no Brasil: nesse período surgiram a Editora Pensamento e a Sociedade teosófica. Anais Nin sugeriu a Beatrice escrever suas memórias, publicadas, depois, com o título de I Shock myself. Ela morreu com 105 anos e, quando lhe perguntaram sobre os segredos da longevidade, respondeu sem pestanejar:”Como todos os chocolates e os jovens”. O leitor interessado poderá visitar na Califórnia o Beatrix Wood center for Arts.Eliade falou duma identidade entre profano e sagrado.

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