O romance Abril amargo  e o episódio da companhia de luz nos anos 60s

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Luiz Roberto Benatti

 Com o propósito  de contestar observações por mim registradas no Facebook sobre o romance Abril amargo, de Zenaide Bassi,   Maria Célia Nunes perguntou-me se eu estaria disposto a desmentir  a veracidade absoluta dos documentos, como quem afirmasse que contra eles não haverá argumento razoável que sobreviva. O que diz ela é que o romance de Zenaide  baseia-se em depoimentos orais e em artigos de jornal de  época, razão por que (ela não afirma nada sobre isso) tais depoimentos teriam  transformado a  obra  em relato de verdade  (“Você está coberto de razão, Benatti, nunca aconteceu nada em Catanduva sobre o caso da companhia de força e luz.”). O que eu digo é que Abril amargo é obra de ficção, assentada, portanto, no imaginário e isso pode ser percebido a partir do título, cujo amargo só se aplica ao mês num sentido sinestésico, como o sabor da madeleine em Proust. Os meses só têm  sabor num sentido poético ou metafórico. O de Zenaide, além disso, remete ao verso de T.S. Eliot “April is the cruelest month”. Era cruel por ser amargo. Maria Lúcia Santaella, catanduvense que viveu o episódio e que escreve sobre Peirce e Lacan , afirmou num ensaio que “o real é o impossível, aquilo que não pode ser simbolizado e que o símbolo é incapaz de capturar”. A afirmação só parecerá estranha a quem acredite que o que é verdadeiro para mim deverá ser para o restante da humanidade, quando, de fato, o real é uma construção sobre o que seja o real. Ora, se Zenaide escreveu ficção, ela enfronhou-se no simbólico romanesco. Outra questão em que Célia Nunes insiste é tratar dos fatos de época como se o episódio pudesse ter tido um avatar das recentes manifestações de rua de SP ou RJ., ocorrências de mesma natureza que garantiriam a Catanduva certa dose de pioneirismo. O dramático episódio local deu-se num único dia e não obedeceu a um plano adrede traçado nem pensou  em alterar a ordem das coisas, todavia verificou-se como resposta dum grupo de moços aos cortes diários de energia elétrica no início da noite. Da Praça da República, a 100 metros da companhia, os moços rumaram para o escritório na esquina da Rua Alagoas/Pará onde arrombaram a porta e revolveram papéis; turbinados pela euforia, resolveram atear fogo nos depósitos de óleo diesel e gasolina armazenados em grandes tanques enterrados no quintal. Se o tivessem feito, teriam morrido e explodido  o quarteirão e casas ao redor. O subdelegado de polícia Urbano Salles mandou alguns soldados abrir fogo contra os amotinados. Nas palavras de Lúcia Santaella, nossa contemporânea no velho Barão juntamente com a Zenaide: “O real é o impossível, aquilo que não pode ser simbolizado e que permanece impenetrável ao sujeito de desejo para quem a realidade tem uma natureza fantasmática (…)”  Por fim,uma pergunta sobre o óbvio ululante: Quantos anos teriam hoje os moços sobreviventes daqueles dias? Como os jornais A cidade e O Bandeirantes faziam-se de modo precário, quer dizer, não tinham fotógrafos, e o material de ilustração, transformado em velhos clichês, era feito em Rio Preto, nem sequer temos ícones do episódio. Todavia, reafirmo: Abril amargo tem de ser lido como romance.

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