PALCO ILUMINADO

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                Sérgio Roxo da Fonseca

 

        O poeta e jornalista Orestes Barbosa compôs a famosíssima música “Chão de estrelas” que, ao que percebo, concorre com “Operário em construção” como os dois poemas mais refinados das letras brasileiras, Seja quanto ao fundo, seja quanto à forma.

        O poema de Orestes Barbosa narra que, no morro do Salgueiro, seu barracão tinha o cantar alegre de um viveiro. Tanto que as roupas comuns dependuradas no varal, tal bandeiras agitadas, pareciam um estranho festival de trapos colorido mostrando que nos morros mal vestidos é sempre feriado  nacional.

        Na última estrofe, Orestes Barbosa lança todo o brilho de sua inspiração, primeiro documentando que a paz era tão grande, que a porta do barraco era sem trinco e o luar furava o zinco, salpicando de estrelas o chão da casa humilde; depois confirma que a mulher amada pisava nos astros distraída, sem saber que a ventura desta vida é a cabrocha, o luar e o violão.

        O domínio da palavra escrita, transformada em verso e depois em música, converteu-se na prova irrefutável da ilimitada dimensão da arte brasileira.

        Hoje o texto pode e deve ser convertido num documento histórico. O pesquisador indagaria de que maneira poderia existir naquela época um barraco no morro do Salgueiro erigido num palco onde se cantava músicas alegres de um viveiro? É possível comprovar que naquele local os trapos coloridos, dependurados no varal, agitam-se ao ar compondo um estranho festival? E o luar furtivo, furando o teto de zinco ainda salpica de estrelas o chão da casa, permitindo que a mulher amada, sem saber, saia a pisar nos astros distraída, caminhando então por cima do universo? Mas então o que ocorreu para transformar o paraiso de ontem no inferno de hoje?

        Sou capaz de me meter a testemunha para buscar respostas às indagações. O Rio e o seu território foram transformados no cenário de decisões politicas e artísticas da Nação, sofrendo uma irresistível transformação com a transferência da capital para Brasília. A população cresceu sem saber qual é o seu caminho. Raras são as indústrias. Muito pequenas são as áreas agricultáveis. Instalou-se um labirinto mais complicado que aquele do Minotauro.

        Como estancar hoje em dia o derramamento de sangue sobre o chão salpicado de estrelas num barraco do Morro do Salgueiro? Secundando-me às lições deixadas pelo Promotor de Justiça Roberto Lira, um dos autores do Código Penal de 1940. O homem caminha pelos astros com seus foguetes, ao mesmo tempo em que aplica uma cultura ancorada nas visões medievais para resolver problemas sociais.

         Pobre civilização que acredita conseguir vale-se das armas para arrumar a desarrumação de sua casa. Mesmo queimando na fogueira Joana D’arc não conseguiu até hoje apagar a importância de sua luta pela liberdade. Já passados alguns séculos!

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