O terror

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Elko Perissinotti & Luiz Roberto Benatti

 

Tanto o  riso quanto o escárnio cessam diante do cenário de terror. O luto não tem gengivas. Conrad, que o conheceu por viagens e o imaginário de escritor, escreveu: “Who knows what true loneliness is – not the conventional word but the naked terror? To the lonely themselves it wears  mask. The most miserable outcast hugs some memory or illusion”, quer dizer, “Quem sabe o significado da verdadeira solidão – não a palavra convencional, mas o terror posto a nu?Para os solitários ela usa uma máscara. Os mais comuns e desamparados acalentam alguma lembrança ou ilusão.”O terrorista também é um solitário, todavia essa condição não faz dele um paladino de grandes causas religiosas ou debates  filosóficos. Seu silêncio não se propaga no claustro, mas se inebria com o formol do necrotério. No ato de provocar o morticínio, ele se mata. O morto não tem tempo de ver esgarçadas ou esfareladas as próprias memórias e o terrorista apaga os mais mínimos traços  de memória invasora que a vítima, independentemente de sua vontade, aspergia como cinema, escultura, museu, celular, moda. O terrorista é como o cão que não faz trocas: seu osso é moeda única que bolsa alguma negocia. Ele aprende a Língua do outro apenas para mapear locais e ruas por onde o sangue irá escorrer. É um Robespierre que nada soube do regime antigo nem vai-se enamorar do utópico. No terrorista a infância foi absorvida pela adolescência e a adolescência jura de pés juntos que a velhice é para os otários. Os pedaços do terrorista não frequentam o IML. Para escapar à morte, o morto provável finge-se de morto – estato único admitido pelo terrorista. Problema sério para o terrorista é que ele, a rigor, não poderá sobreviver à sua missão, uma vez que a memória é sua grande adversária. Ele só não poderá zerar a geografia – o deserto interior/anterior  é sua mãe: waste land. Ele  não se  emociona com a Revolução francesa de 1789 nem sequer a lamenta: naqueles dias, a França montou cenários ao ar livre assistidos pelas massas, enquanto que o terrorista dos dias que correm é minimalista. Nos EUA, ele mata professor e aluno nas escolas depois de ter premeditado o gesto por muito tempo fechado num quarto de solteiro. O terrorista norte-americano é o mais solitário dos solitários, ainda que ele só abra fogo contra seus fantasmas à luz do dia. A multidão não precisa ser morta: ela cometeu suicídio há muito tempo. A multidão quer comer, o terrorista é frugal. Num estádio de futebol, sob ataque terrorista, a multidão mata a si mesma, pisoteada por pés equinos em fuga. O terrorista adora indefesos e distraídos.O controle (ma)remoto do terrorista é o fuzil Kalashnikov. O brinquedo de Ísis é explosivo.

De um dos terroristas, sobrou apenas um dedo: no estado em que se encontra não servirá mais para retirar o pino da granada. Para a polícia de inteligência, serviu para identificar um jovem sírio que vivia no bairro Madelaine e nisso Marcel Proust acordou para o chá e a bolacha, cuja memória teria levado o terrorista, vivo, a apunhalar-se. A morte não cultiva memórias.

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