Seis propostas de entretenimento com a Filosofia, IV

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Luiz Roberto Benatti

Jan de 2015, no auditório do MIS

Av. São Domingos, 880

Catanduva, SP

4º. encontro:O sagrado e o profano

 

Num lugar imaginário da Índia, vivia um casal de agricultores e  7 filhos, todos eles extremamente pobres. Moravam num barraco e, de sol a sol, conduziam o arado tracionado pela vaca, a fim de manhar a terra para o plantio. A vaca, no tempo hábil, fornecia-lhes leite para o consumo e o fabrico de queijo. Como a miséria pouca é bobagem, as crianças, sempre famintas, ficaram com o corpo coberto de feridas. Para aplicar-lhes ungüento e comprar na venda arroz, o pai vendeu a vaca. As crianças abateram-se com a perda do animal e, depois disso, a mulher também adoeceu. Os filhos andrajosos ficaram com o corpo coberto de feridas. Em desespero, o homem subiu a montanha para  aconselhar-se com o guru. Quase nu, o sábio atendia os queixosos numa caverna. A fila era imensa e, quando chegou sua vez, respeitoso, o homem sentou-se diante do guru, lágrimas nos olhos, e lhe disse que, se a situação não se alterasse nos próximos dias, ele daria cabo da vida. A seguir, narrou com detalhes o drama de família e a tudo o guru ouviu no mais completo silêncio. Quando o homem terminou de contar sobre suas agruras, o sábio o aconselhou: “Desça a montanha, compre de volta a vaca e a leve para dentro de casa. Retorne à caverna dentro de 6 meses”. O pobre diabo fez como lhe havia recomendado o guru e ao proprietário do animal ficou devendo até as calças. No interior do barraco de chão batido, a vaca comeu tudo o que tinham, defecou e urinou por todos os cantos, apareceram as varejeiras, o ar ficou irrespirável e as pústulas das crianças, a mulher e as suas próprias aumentaram. Depois de 6 meses, com as forças exauridas, o homem subiu a montanha, esperou sua vez e relatou a terrível situação ao sábio que, finda a narrativa, perguntou ao queixoso:”As coisas pioraram ou melhoraram”. O homem respondeu-lhe: “Pioraram muito, senhor. O que é que eu faço?” Disse-lhe o guru: “Não faça nada, meu filho. Deixe as coisas como estão ou então devolva a vaca ao dono. Se você se livrar do animal, comerão do pouco que produzem, as fezes irão secar, vocês aproveitarão a bosta como combustível e, quando puderem, comprarão outra vaca”./ Imanência & transcendência ou o mundo como vale de lágrimas; o sagrado & o profano (fora ou longe do templo); por que a vaca é um animal sagrado?/ Ela se alimenta dum cogumelo procedente do Platô dos Rios, no Saara, proximidades da Argélia./O cogumelo tem propriedades psicodélicas ou alucinógenas, cujas beberagens são usadas em ritos religiosos. / Assim, segundo tal ponto de vista, os indianos, ao privar-se de carne bovina, não consomem produtos condutores ao delírio mental./ À busca da felicidade, Timothy Leary, professor e pesquisador de Harvard, envolveu-se com o Projeto psilocybin, cujos cogumentos ele localizou no México. / Leitores e admiradores de Leary, os hippies entregaram-se a consumo de tais beberagens e geraram a contracultura./ Aldous Huxley, ao se dar conta de que contraíra câncer, consumiu LSD, de cujo período resultou o livro Às portas da percepção e O céu e o inferno./ O poeta Paulo Mendes Campos, amante de Clarice Lispector, submeteu-se a semelhante experiência.

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