O tratado de Narciso (teoria do símbolo)

Narcissus 1990 by Mat Collishaw born 1966

 

André Gide
Tradução de Luiz Roberto Benatti

Nuper me in littore vidi. Virgílio.
a Paul Valéry
Os livros não são talvez coisa mui- to necessária. À primeira vista, uns
tantos mitos seriam suficientes; em
si mesma, uma religião comportaria
tudo. Aturdia-se o povo com o fin- gimento das fábulas e, sem compre- ender, venerava. Debruçados sobre a
profundidade das imagens, os sacer- dotes, atentos, penetravam aos pou- cos o sentido íntimo dos hieróglifos.
Depois, quisemos explicar. Os livros
ampliaram os mitos. Uns poucos mi- tos, no entanto, seriam suficientes.
Assim, o mito de Narciso:
Narciso era belo à perfeição e, por isso, era
casto. Por estar enamorado de si mes- mo, desdenhava as Ninfas. Brisa alguma
Conheceis a história. Por isso nós a
diremos de novo. Todas as coisas já
foram ditas, mas como ninguém as
escuta, é preciso recomeçar sempre.
Não há mais ribanceira nem fonte;
metamorfose ou flor que se mire.
Não há nada senão o solitário Nar- ciso, um Narciso apenas sonhador,
fechado numa pose de escultura. Ele
se inquieta com a inútil monotonia
da hora, e, indeciso, seu coração se
interroga. O que ele quer, enfim, é
saber a forma da sua alma. Se a julga
por seus demorados estremecimen- tos, ele sente que ela deve ser adorá- vel em demasia. Seu rosto, porém!
Sua imagem! Ah, não saber alguém
se se ama… não conhecer a beleza
em si mesmo! Eu me confundo nesta
paisagem sem linhas que não con- traria seus planos. Ah, não poder se
ver! Um espelho! um espelho! um
espelho! um espelho!
E Narciso, que não duvida que sua
forma não seja uma porção qual- quer, ergue-se e sai à procura dos
cobiçados contornos para, enfim,
dissimular sua grande alma.
À beira do rio dos tempos, Narciso
detém-se. Riacho fatal e ilusório no
qual passam e escoam-se os anos.
Margens singelas de tosca moldura
onde a água se contém como um es- pelho sem aço, no qual nada se veria
por trás, ou por trás do qual o tédio
abriria suas asas. Carnal morno,
letárgico, espelho quase horizontal.
Nada poderia distinguir do ambiente
descolorido essa água tépida, se não
sentíssemos que ela flui.
De longe, Narciso tomou o rio por
um caminho. E como se entediava,
completamente só nessa embriaguez,
aproximou-se para ver passarem as
coisas. Com as mãos na moldura,
inclina-se agora na postura tradicio- nal. E eis que, na água, porque ele
mira, matiza-se, de repente, delicada
semelhança.
Flores dos rios, troncos das árvo- res, fragmentos de céu azul refleti- dos, tudo numa fuga de rápidas ima- gens que apenas o aguardam para
existir, colorindo-se à vista de seu
olhar. A seguir, abrem-se as colinas e
as florestas se repartem ao longo dos
vales – visões que ondulam ao capri- cho das cores das águas, e que as on- das diversificam. Narciso olha muito
admirado. Mas não compreende
bem por que uma e outra se agitam,
seja porque sua alma dirige a onda,
seja porque a onda a direcione.
Para onde Narciso olha, eis o pre- sente. Do futuro mais recuado, as
coisas ainda latentes apressam-se
para o ser. Narciso as vê, porque elas
passam; esvaem-se no passado. Em
breve, Narciso conclui ser sempre a
mesma coisa. Ele interroga; depois,
reflete. Passam sempre as mesmas
formas; só o arrebatamento da onda
as diferencia.
Por que são tantas; ou antes, por
que são as mesmas? Em sendo im- perfeitas, recomeçam sempre… e
todas elas, pensa ele, esforçam-se e,
com força, atiram-se de encontro a
uma primeira forma perdida, para- disíaca e cristalina.
Narciso sonha no paraíso.

I
O Paraíso não era amplo. Perfeito,
cada uma de suas formas abria-se
uma púnica vez. Um Jardim alberga- va todas as formas. Que importa que
ele existisse ou não? Se, todavia, ele
existisse, haveria de ser assim. Tudo
de seu cristalizava-se numa inevi- tável floração, sendo tudo do modo
perfeito como deveria ser. Tudo per- manecia imóvel já que nada ansiava
por estar melhor. De modo pausado,
a calma gravitação operava sozinha a
revolução do conjunto.
E porque, tanto no Passado quanto
no Porvir, força alguma se refreia, o
Paraíso não se fez jamais – ele sim- plesmente existiu desde sempre.
Casto Éden! Jardim das Fantasias!
onde as formas rítmica e firmes sem
esforço revelam o próprio nome;
onde cada coisa era aquilo que pare- cia ser e onde era inútil provar.
Éden! onde as brisas melodiosas
ondulavam em curvas previstas;
onde o céu espalhava azul no si- métrico tabuleiro de relva; onde os
pássaros tinham a cor do tempo e as
borboletas executavam ao redor das
flores felizes harmonias; onde a rosa
era rosa porque o besouro que nela
vinha pousar era verde. Tudo era
perfeito como um número e podia
ser determinado com naturalidade.
Da correspondência das linhas nas- cia um acordo. Uma constante sinfo- nia pairava acima do jardim.
No centro do Éden, Ygdrasil, a
árvore logarítmica, mergulhava no
solo as raízes nutrientes passeando
pelo tabuleiro de relva ao redor a
sombra espessa de sua folhagem, na
qual a solitária Noite se dissimulava.
À sombra, em seu tronco, apoiava-se
o livro do Mistério. Nele podíamos
ler a verdade que é preciso conhecer.
E o vento, soprando nas folhas da
árvore, o dia todo soletrava os indis- pensáveis hieróglifos.
Piedoso, Adão ouvia. Único, asse- xuado ainda, permanecia sentado
à sombra da grande árvore. O ho- mem! Hipóstase de Elohim, cúmpli- ce da Divindade! por ele e para ele
manifestaram-se as formas. Inabalá- vel e dominante diante dessa fêmea
encantadora, ele a vê desenvolver-se
continuamente.
Como espectador forçado de um
espetáculo no qual tem por papel
unicamente olhar, ele se cansa. Sabe
que tudo representa para ele. Mas ele
mesmo… ele mesmo, porém, não se
vê. E desde essa época, que mais fez
ele? Ah! olhar-se! Porque ele tirou
do nada, certamente é poderoso, e
o mundo inteiro para ao seu olhar.
Mas o que sabe de sua força, se ela
permanece em desuso? Visto só as
contemplar, ele não se distingue
mais das coisas: não saber onde se fixar,
não saber até onde ir! Quem não
ousa arriscar um gesto sem romper
toda a harmonia é, na verdade, es- cravo. E de resto, tanto pior! essa
harmonia, bem como sua perfeita
correspondência, me irritam. Um
gesto! um pequeno gesto, para co- nhecer, que diabo!, uma dissonância.
Um pouco de imprevisto!
Ah! colher! colher um ramo da
Ygdrasil entre os dedos cheios de
orgulho, e que a brisa o…
Assim se fez.
… Uma fissura, à primeira vista
imperceptível, um grito, mas que
rebenta, desdobra-se, exaspera-se,
assobia com estridência e logo geme
como um temporal. Desfalecida, a
árvore Ygdrasil oscila e estala; as
folhas em que se divertiam as brisas,
abaladas e ressequidas, rodopiam
na borrasca que se ergue levando-as
para longe, para o desconhecido céu
noturno e para arriscadas paragens,
confins também da dispersão das
páginas arrancadas ao grande livro
sacro que se desfolha.
Rumo ao céu sobe um vapor, lá- grimas, nuvens que caem em forma
de lágrimas e que de novo subirão
como nuvens: o tempo é nascido.
E o homem, aturdido, andrógino
que se desdobra, chorou de angústia
e horror, sentindo, com um novo
sexo, rebentar em si o inquieto de- sejo por essa metade, quase uma
semelhança sua, mulher surgida de
repente, que ele abraça, que ele gos- taria de reaver – essa mulher que, no
esforço cego de recriar em si o ser
perfeito e fixar a descendência, agita- rá no útero o desconhecido da nova
raça, para logo pôr no tempo outro
ser, ainda incompleto e que não se
bastará.
Triste raça que irá te dispersar por
essa terra de crepúsculo e súplicas!
A lembrança do Paraíso perdido
virá afligir teus êxtases por aquela
Paraíso que tu buscarás em toda
parte e do qual virão te falar de
novo profetas e poetas, os quais
piedosamente irão recolher as folhas
arrancadas ao Livro imemorial no
qual se lia a verdade que é preciso
conhecer.

II
Penso que, se Narciso se voltasse,
veria uma ribanceira verde, o céu,
talvez, a Árvore, a Flor, qualquer coi- sa de estável e que permanece, cujo
reflexo, caindo n’água, se rompe, e
que a fugacidade das ondas diversi- fica.
Quando essa água interromperá
sua fuga e, resignada como um espe- lho estagnado, ordenará com a pu- reza da imagem – numa semelhança
que vai ao ponto de com elas se
confundir e, por fim, nelas se trans- formar – as linhas dessas formas ine- vitáveis?
Quando o tempo, detendo sua
fuga, deixará que tal dissipação se
aquiete? Formas, formas divinas e
perenes! que apenas aguardam o re- pouso para ressugir, oh! quando, em
que noite, em que silêncio, vós vos
cristalizareis?
O Paraíso está sempre a refazer- -se. Ele não se localiza numa Tule
longínqua, mas permanece visível.
De modo virtual, cada coisa detém
a íntima harmonia do próprio ser,
assim como cada sal, em si mesmo,
contém o arquétipo de seu cristal. E
chega um tempo de noite tácita em
que águas mais densas irrompem:
nos imperturbados abismos já vão
brilhar as canouras secretas…
Tudo procura a perdida forma,
que transparece, manchando-se,
falseando-se, mas sem se satisfazer,
por recomeçar sempre, oprimida,
constrangida pelas formas vizinhas,
diligentes também em se mostrar. Já
não basta mais existir (e o orgulho
as envaidece): é preciso provar-se. A
hora que passa confunde tudo.
Como o tempo só se arranca com a
fuga das coisas, cada coisa se agarra
e se crispa tendo em vista retardar
um pouco essa corrida para poder
mostrar-se melhor. Há épocas em
que as coisas se fazem mais lentas e
nas quais cremos que o tempo re- pousa. E como o ruído cessa com
o movimento, tudo se cala. Espera- mos. Compreendemos ser trágico
o instante e que não é necessário
mover-se.
O prelúdio dos apocalipses: “Fez-se
no céu um silêncio”. Épocas trágicas,
sim, em que se iniciam novas eras,
fundem-se céu e terra, o livro dos
sete selos está para abrir-se, tudo
vai-se fixar numa postura eterna.
Levantou-se, porém, um clamor
importuno. Nos predestinados mon- tes, onde acreditamos vai o tempo
findar-se, alguns soldados, ávidos
talvez, repartem-se as vestes, deitam
a sorte sobre a túnica, no momento
em que o êxtase imobiliza as santas
mulheres e o véu que se rasga está
para anunciar os segredos do tempo;
no momento em que toda a criação
contempla Cristo fixado na supre- ma cruz a dizer as últimas palavras:
“Tudo está consumado”.
… É de resto, não! tudo está por se
refazer, eternamente por se refazer,
porque um jogador de dados não
interrompeu o gesto presunçoso, um
soldado gostaria de ganhar a túnica,
alguém não olhava.
Porque a culpa é sempre a mesma
para quem sempre volta a perder
o Paraíso: o indivíduo que sonha
consigo mesmo enquanto a Paixão
confere as ordens sacras e, comparsa
orgulhoso, não se subordina.*
* As Verdades habitam por detrás das For- mas-Símbolo. Todo fenômeno é símbolo de
uma Verdade. Seu único dever é manifes- tar-se, o único pecado é preferir-se.
Vivemos para nos manifestar. São as mes- mas regras da moral e da estética: toda obra
que não se manifesta é inútil e, por isso
mesmo, perversa. Todo homem que não se
manifesta é inútil e perverso. (Elevando-se
um pouco, veremos, portanto, que todos se
A cada dia, missas inesgotáveis, a
manifestam, mas só devemos reconhecê-lo
mais tarde.)
Qualquer figurante da Fantasia tende a
preferir-se à Fantasia que manifesta. Pre- ferindo-se, aí está o pecado. O artista ou o
sábio não devem preferir-se à Verdade que
pretendem anunciar (Aí está a sua moral.).
Não devem preferir a palavra ou a frase à
Fantasia que querem ambos mostrar: diria
que nisso reside toda a estética.
E não pretendo que tal teoria seja nova. As
doutrinas da renúncia não pregam outra
coisa.
Para o artista, a questão moral é tão-só que
a Fantasia por ele manifesta seja mais ou
menos moral e útil a um grande número de
pessoas. A questão é que a manifeste bem,
pois tudo deve ser manifestado, mesmo as
coisas mais funestas: “A desgraça atinge
aquele a quem o escândalo envolveu”, mas
“É preciso que venha o escândalo.” O artista
e o homem verdadeiramente homem, que
vive com qualquer coisa, deve antes ter feito
o sacrifício de si mesmo. Toda a sua vida
não é senão uma preparação para isso.
E o que manifestar agora? Aprendemos isso
no silêncio. (Esta nota foi redigida em 1890,
na mesma época do tratado.)
fim de devolver o Cristo à agonia. O
público na posição de prece… um pú- blico! quando seria necessário pros- trar toda a humanidade! Nesse caso,
uma única missa seria suficiente.
Se soubéssemos estar atentos e
olhar…

III
Poeta é aquele que olha. E o que
vê? O Paraíso.
Porque o Paraíso está em toda par- te. Não cremos nas aparências, por- que elas são imperfeitas: balbuciam
as verdades que escondem. Com
meia-palavra, o Poeta deve com- preender, porque de novo diz essas
verdades. Age o sábio, por acaso,
de outro modo? Também ele busca
o arquétipo das coisas e as leis de
sua sucessão. Recompõe, enfim, um
mundo idealmente simples, no qual
tudo se ordena com naturalidade.
Todavia, por meio de inúmeros
exemplos, o Sábio procura por essas
primeiras formas numa demorada
e tímida indução. Assim faz por se
deter na aparência. Desejoso de cer- teza, recusa-se a adivinhar.
O Poeta, aquele que sabe que acre- dita, adivinha atrás de cada coisa (e
uma única lhe basta) o símbolo, a
fim de lhe revelar o arquétipo. Ele
sabe que a aparência é um pretexto
apenas, uma veste que a furta e na
qual pousa o olho profano. No en- tanto, ela nos revela que a Verdade
está ali**. Piedoso, o Poeta contempla.
Debruça-se sobre os símbolos e,
silencioso, desce bem fundo até o
coração das coisas. E quando, como
um visionário, deu com a Fantasia,
íntimo número harmonioso do Ser,
fundamento da forma imperfeita,
ele a retém, pois, indiferente à forma
transitória que a revestiu no tempo,
sabe como lhe dar de novo uma for- ma eterna, a sua verdadeira Forma,
inevitável, paradisíaca e cristalina.
Pois a obra de arte é um cristal –
paraíso incompleto e revivida Fan-
** Compreendem que chamo símbolo a tudo o
que se manifesta?
tasia, num grau de elevada pureza,
na qual, como um oculto Éden, a
ordem normal e precisa dispôs todas
as formas numa dependência recí- proca e simétrica; em que o orgulho
da palavra não suplanta o Pensa- mento e as frases rítmicas e firmes,
símbolos ainda, mas puros símbolos,
e as palavras tornam-se transparen- tes e reveladoras.
Tais obras só se cristalizam no
silêncio. Todavia, é nos silêncios,
muitas vezes em meio à multidão na
qual o artista, como Moisés refugia- do no Sinai, isola-se, foge das coisas,
do tempo, disfarça-se numa atmos- fera de luz, acima da multidão afo- bada. Nele, aos poucos, a Fantasia se
aquieta. Lúcida, ela se alegra fora de
hora. E como ela só existe no tempo,
o tempo nada pode contra ela. Dize- mos mais: perguntamos se o Paraíso,
igualmente localizado fora do tempo,
não estaria talvez sempre naque- le lugar, quer dizer, idealmente…
Da margem, muitas vezes, Narciso
contempla essa visão transfigurada
pelo desejo amoroso. E sonha. Soli- tário e pueril, enamora-se da frágil
imagem. Necessitando de carinho,
debruça-se à beira do rio para apla- car a sede de amor. Ele se debruça,
e eis que, de repente, essa fantasma- goria se desfaz. No rio, diante dos
seus, vê apenas dois lábios, que se
estendem, e dois olhos, os seus, que
o veem. Compreende ser ele, somen- te ele, esse enamorado da própria
imagem. Ao redor, uma inocência
sem esperança que seus pálidos
braços cegam, impelidos que foram
pelo desejo da imagem despedaçada,
mergulhando-se depois num ele- mento desconhecido.
Então, ele se ergue um pouco. O
rosto divaga. Como antes, a super- fície da água matiza-se e a visão
ressurge. Todavia, diz Narciso ser
impossível beijá-la. Ele não precisa
desejar uma imagem: um gesto de
quem a quer possuir, e ela se despe- daça. Ele está só. Que fazer? Con- templar.
Circunspecto e piedoso, recupera
seu jeito calmo. Ele permanece –
símbolo que se expande – e, debru- çado sobre a aparência do Mundo,
de modo vago percebe nele, fundi- das, as gerações humanas que pas- sam.
Este tratado talvez não seja coisa
muito necessária. Uns tantos mi- tos, no entanto, seriam suficientes.
Depois, quisemos explicar: orgulho
do sacerdote que pretende revelar
os mistérios para se fazer amar ou
atrair muita simpatia, ou esse amor
apostólico que nos faz erguer o véu
dos mais secretos tesouros do tem- plo, e que profanamos ao revelar. A
razão é que sofremos com nossa ad- miração solitária e que gostaríamos
que outras pessoas amassem apaixo- nadamente.
Posfácio: Narciso em transe /
Narciso em trânsito
I
Numa época em que grande parte
dos textos encontra-se à mercê do
rápido desgaste, poder enamorar-se
da linguagem translúcida dO Trata- do de Narciso é a oportunidade de verificar como suas notas permane- cem vibrantes e contemporâneas. Há
no Tratado fragmentos tão agradá- veis ao ouvido quanto os delicados
acordes de Haydn (Flores dos rios,
troncos das árvores, fragmentos de
céu azul refletidos, tudo numa fuga
de rápidas imagens que apenas o
aguardam para existir, colorindo-se à
vista de seu olhar. A seguir, abrem-se
as colinas e as florestas se repartem
ao longo dos vales – visões que ondu- lam ao capricho das cores das águas,
e que as ondas diversificam. Narciso
olha muito admirado. Mas não com- preende bem por que uma e outra se
agitam, seja porque sua alma dirige
a onda, seja porque a onda a direcio- ne.) ou os fortíssimos de Beethoven
(… Uma fissura, à primeira vista
imperceptível, um grito, mas que
rebenta, desdobra-se, exaspera-se,
associa e logo geme como um tem- poral. Desfalecida, a árvore Ygdrasil
oscila e estala; as folhas em que se
divertiam as brisas, abaladas e res- sequidas, rodopiam na borrasca que
se ergue levando-as para longe, para
o desconhecido céu noturno e para
arriscadas paragens, confins também
da dispersão das páginas arrancadas
ao grande livro sacro que se desfolha.)
As primeiras palavras de Gide re- produzem a afirmação de uma ati- tude que o tempo só virá a reforçar:
o ato de vida plena contra a clausura
dos compromissos. O que ele quer, enfim, é saber a forma da sua alma.
A contemporaneidade do Tratado
explica-se pela identidade do ato de
escrever com a ocasião do conheci- mento do ser, cuja equação poderia
ser formulada do seguinte modo: a
página em branco está para o poe- ta assim como o espelho vazio está
para a imagem que nele virá abrigar- -se. A novidade proposta por Gide
procede do fato de o ato de refletir- -se no lago ser capaz de pôr em
movimento a natureza. Onipotência do olhar, como a divindade da crian- ça no exemplo de Jacques Lacan, ao
descobrir o prazer de jogar o jogo
do espelho que lhe devolve a própria
imagem que ela há bem pouco havia
roubado ao espelho. Momento em
que, como na imagem de Heráclito,
tudo passa… pela superfície do lago/ espelho/página…
O surgimento de um segundo
personagem (a mulher) eleva a car- ga dramátifca pelo fato mesmo de o
novo figurante substituir o tédio por
essa obscura necessidade responsável pela angústia que não se cura jamais.
(I)
Resta a Narciso, doublè de artista
e divindade, esperar que o repouso
das águas postas em agitada carreira
lhe devolva, com o tédio recupera- do, a imagem íntegra de si mesmo.
Corajoso ato de insubordinação que
o levará a sustentar a defesa da ma- nifestação: “… toda obra que não se
manifesta é inútil e, por isso mesmo,
perversa”. (II)
Purgado da culpa nascida da ne- cessidade de olhar e se ver, Narciso
recupera a tranquilidade da alma. E,
ao separar-se do cientista, irmana-se
com o poeta. A verdade do cientista
é um gesto estático, portanto inócuo.
Gesto de imanência abolidor de toda
transcendência. O símbolo do poeta
que se deixou fisgar pelo olhar diri- gido pela fantasia é cristal de elevada
pureza, cuja transparência denuncia
a harmoniosa forma do ser. E só nes- te instante o outro pode-se livrar das roupagens do desassossego para ser
mais uma das incontáveis imagens
cambiantes a cruzar a superfície do
lago. (III)
II
Exemplo curioso do atual desen- contro da obra de André Gide pode
ser verificado por consulta ao The
Penguin Dictionary of Theatre e ao
The New Penguin Dictionary of Mu- sic. Se o primeiro o ignora como teatrólogo, para o segundo, o autor
de Si le grain ne meurt é tão-somente
o responsável pelo libreto musical de
Perséphone, cujos créditos de autor
de obra teatral parecem ser conferi- dos a Igor Stravinsky.
Haveria ainda desencontros de
outros gêneros e procedências. Há
pouco, ao tentar explicar o porquê
de um jovem engenheiro, por nicas e
futricas, ter fulminado, em meio ao
pervertido trânsito da capital paulis- ta, um engenheirando, um sociólogo
que noutros tempos fora colega do
réu prestou o seguinte depoimento
sobre o assassino: “Uma pessoa com
certa paranoia. Ao mesmo tempo,
megalomaníaco e narcisista, embora
se reconheça que é talentoso, com
um QI acima do normal”. Acres- cente-se, ainda segundo os jornais,
que o assassino, revólver em punho,
encostou o cano da arma no olho da
vítima e pressionou o gatilho. Se o
sociólogo pusesse demorada atenção
no quadro constataria o seguinte:
que o narcisista assassino fere de
morte a vítima (imagem de si mesmo
projetada na turbulência do lago
em trânsito?) atingindo-a no olho
que tudo vê ou que gostaria de po- der ver, se em si mesmo o ato de ver
não fosse proibido pela consciência
culpada!
Adite-se, para concluir estas notas,
que, se a Introdução ao Narcisismo,
de Sigmund Freud, data de 1914, o
ano de 1891 assistiu ao lançamento
de duas obras que, ao desenvolver
o tema da reflexão especular (!), em
tudo e por tudo conservam-se in- quietadoramente contemporâneas:
The Picture of Dorian Gray, de Oscar
Wilde, e Le traité du Narcisse.
Luiz Roberto Benatti
São Paulo, novembro de 1983

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