Philip Roth faleceu e nós continuamos a brincar de casinha

 

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Luiz Roberto Benatti

Tenho ataques de fúria, mínimos que sejam, quando me dou conta de que moços instruídos visitam o quarto de  despejo de Carolina Maria de Jesus como se isso tivesse qualquer significado positivo além de ser prurido passageiro duma literatura que não desfruta nem de rumo e muito menos  de prumo. Philip Roth faleceu, mas The human stain que os nossos tradutores para o cinema tiveram por ousadia chamar de Revelações continua atual, ainda que tenha sido publicado em 2000. Nós lemos Paulo Coelho como se suas sacadas para exercícios vazios dum Eu solipsista levassem para algum lugar. Stain significa mancha, nódoa, mácula ou desonra, título que o nosso misticismo barato por receio de punição celestial não daria a nenhum de nossos livros. Do romance  fez-se filme grandioso com Anthony Hopkins e Nicole Kidman. No livro, o professor Coleman Silk perde a cátedra depois de ter chamado de spooks ou fantasmas dois alunos  africanos, sempre ausentes, cuja denúncia provocou a demissão do mestre. Abalada pelo fato, a esposa do professor sofre derrame e morre. Hopkins/Coleman envolve-se com Faunia Farley/Nicole (iletrada)  numa relação amorosa incandescente. A grande surpresa presa nas entrelinhas é que o professor descendia de africanos e, num universo racista, acabou por esconder a nódoa embaixo do travesseiro. Convido o leitor culto e preocupado com viver num país estranho a si próprio a ler Philip Roth.

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