Cidade sentada

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Ana Marques Gastão

 

Poderia estar de pé, ser pé, mas não,
Lisboa é uma cidade sentada,
mesmo depois de ter sido caravela cravada,
sentada em água de ágata,
torpe num abúlico não-fazer.
Em cada uma das suas gotas inocentes,
lamenta-se, disfarçada, numa balada inclemente
de ametista perolada sem destino e a seu modo embrutecida.
Ígnea, de aceitação safírica, a Lisboa de hoje
não tem combate, apenas grito a-solidário.
De tanto subir, mais alto desce. Lisboa-poço,
fiel no escuro do invisível, tuas aves poderosas
são machos frustrados, presos, sem selo nem
jura, no cativeiro do mando.
Lisboa de passo inconsequente e descentrado,
no sopro de tuas narinas sufocadas, sopras, sopras e não vais.

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