A mecânica das sombras

 

Luiz Roberto Benatti

A sombra liberta-se do corpo como um animal que hospedávamos. Gilles Deleuze

A mecânica das sombras

 

 

mergulhe a pálpebra

na chama

a sombra que se alonga

Borges

é uma só

quebre as bordas

do Sol Tagore

não podes ver o que és

o que vês é

a tua sombra

à espreita

da   solidão da zebra

 

[fecha-se em si mesma a família]

 

 

fecha-se a família em si mesma

até que novo muro a encarcere

distante do que pouco dizem

há savanas onde os leões se aninham

caçam e lambem as crias

ali os céus estão  altos

e a seca vai-se prolongar por muitos anos

grito algum responde aos sussurros frios

ou  aos apelos mudos para além dos muros

 

À vista do gesto de Jackson Pollock

 

vazio ou cheio

em dizer logo me apresto

do cosmo combusto

sobraram soma & resto

nenhum arbusto: o vasto é mínimo

o buraco negro indigesto

quem sabe se isso tudo

será  nefasto ou funesto

se o criador ficou exausto

sem rosto ou rasto?

 

[a casa, o quintal, a cidade]

 

a flor do mandacaru

o sol poente

a roupa no varal acima da cabeça dos cães

as galinhas assanhadas

a pitaia

na casa os livros escalam a prateleira

de onde às vezes despencam

para enfiar-se nos dutos dos olhos

alguns adormecem bem tarde na poltrona

a televisão fala para Ninguém

de conluio com as chuvas

a administração planeja abrir crateras no asfalto

a polenta espera a nona terminar o terço

sentada embaixo da parreira

 

A família de escolha

ela o cumula de mimos e acena para o indefectível amanhã

se o minúsculo teiú o amedronta

o melhor é grudar-se nas pernas do Pai

você não precisa gritar por socorro

ele sabe que uma  velha

noite escura

com raios e trovões continua a rodar

num projetor barulhento de 16 mm

recortada do disco de Newton

a família é branca e tem as mãos erguidas para os céus

onde  se abrigam todos os incluídos

os demais recolhem ossos & pedras

para a Ceia dos deserdados

 

A garota que se apaixonou pelo  mar

 

não lhe prometi um sol amarelo

que afundasse lentamente no mar

mesmo que fosse um sol quase  delicado

sem gritos ou suores exagerados

e quando fui abraçá-la

meu corpo tremia de frio

minha pele era  um cobertor esfarrapado

ela quis chorar em meu ombro

mas eu estava sem camisa

ela se afastou

fez da roupa uma trouxa aborrecida

empurrou o barco para a água

e desapareceu na névoa

dois remos arrebentados

sem esperança nem lucerna

na areia, a trouxa de sargaços

 

[A Língua em que me escrevo]

  

A Língua em que me escrevo

  

jamais esteve em Goa

nem de olho vazado

o mar que aqui se envaza

não se envaza como lá

 

a Língua em que me escrevo

perde-se em  si mesma  por sina

quando tento endireitá-la

mal sussurro  a semínima

rompo-me  de baixo para cima

 

[As coisas só estarão completas quando]

 

as coisas só estarão completas quando

o velho leão urrar na savana três vezes o nome

do anão Filadelfo

morto num incêndio alcoólico quando a jovem e bela trapezista estatelou-se no chão de terra do Circo Garcia

 

O último trem para Lisboa

até hoje não sei bem

se perdi o último trem para Lisboa

ou se Lisboa distanciou-se tanto de mim

que não sinto mais como eram suas cores

havia tantas ladeiras

tudo era feito de lembranças

a dor de outros dias

continuava intacta

sem se esfarelar no fundo da canastra

se não estive lá

uma parte de mim perdeu o sentido

a memória não prescinde de bengalas

e o cheiro daquelas ruas

por onde  Ulisses,envelhecido,

pensou ter navegado

imagine só

ao cair e erguer-se

em pedras secas

entregarei a quem

este casaco vermelho?

 

[voltam sorridentes para reformar o pequeno mundo]

 

voltam sorridentes  para reformar o pequeno mundo

como se mundo houvesse para além das  elucubrações

capa e guarda-chuva continuaram na chapeleira

os pingos intermitentes enferrujaram preciosos arquivos

à espera de novas chuvas benfazejas

entre Metáfora e Metonímia não irão além do feijão com arroz

encantam-se consigo mesmos

e prometem que a santíssima Álgebra

madrasta de todas as contabilidades

vai impelir a canoa ladeira acima

& implodir a miséria ladeira abaixo

se tudo der certo, senhores,

nada dará errado

se as coisas derem errado,

é porque os Céus nos traíram

entretenham-se com os números

patinhos de madeira no parque de diversões

 dependurem-se nas estatísticas

meio corpo fora do espelho

viva as emoções da roda gigante

quem for de outros tempos

use Glostora e chupe bala Chita

mas recomenda-se entubar  a infância no colo dos velhos mandarins

são republicanos fiéis até o meio-dia

 mas sonham com o imperador no entardecer

mais é menos & menos é tanto quanto

noves fora zero três cinco raiz oblonga da Lua

não discuta com o dono do parque

é aquele fortão de fraque e cartola

 quadrante escuro do outro lado do vazio cósmico tatuado no bíceps

ajoelhe-se nos espinhos porque a Esperança

é sempre a primeira que estrebucha e morre

conhece aquele tango em que Gardel 

depois de beijar a prima de Evita às 4 da manhã

engoliu o chapéu –

a tal de Cumparsita, moça prendada?
El día que me quieras voy a estar en sus brazos

não se esqueça de apagar a lâmpada do abajur

comprado num antiquário da Corrientes

e, na volta, jurar para a   mulher que o trem furou o pneu

ela faz que acredita

recebe as flores murchas

 e a vida continua

não é batom, querida

mas trufa de morango!

o urso de pelúcia é para os seus anos

depois que me trintei nunca mais contei

enfie o maldito urso no latão de lixo

e vá roncar alto no quarto da empregada, seu safado

hoje ela faltou para cuidar das pernas fenomenais

lave ao menos a cueca Zorba  na pia do banheiro

quanto ao passeio à Grécia, espere sentado

tranquei a burra do papai e joguei a chave fora

continue a me torrar a paciência

que eu contarei todos os seus podres

na próxima missa das 20 h no domingo

o padre espera seu cheque desde 2010

você enrugou a beleza

de quem um dia você chamou de Kim Novak

 

 

As quatro estações

 

não ocorreu a qualquer um deles

austeros ou sorridentes

atravessar a rua

livraria em frente

no Dicionário consultar

equinócio e solstício

não estávamos na Dinamarca

mas todos eles tinham rasgado mapas e sextantes

no ano anterior

se as definições provocassem  tédio

poderiam anotar rimas

para as próximas palavras- cruzadas

no Verão intérmino choviam em si próprios

mas voltavam secos para casa

bife magro ovo com feijão e arroz a bronca da mulher

o tempo quente pelava os cães

e apressava os cavalos para o bebedouro

do Outono ninguém soube nada

se havia milho verde para a pamonha

ou pescaria de tambiús sob a ponte

mentiam sobre o Inverno

postal em sépia da Europa

Roma coberta de neve

nenhum deles despertou para o tórrido amor

da Primavera

e a vida continuou assim por mitos & muitos anos

até que a filha do meio de um deles  casou-se com o neto do açougueiro

ganhou da sogra um cutelo de ouro

para ser usado nas bodas de ouro

 

À moda de Zang Di

 

nove prefeitos juraram em cruz por tudo quanto é sagrado

que as ruas que sobem ladeira acima são diferentes das que despencam ladeira abaixo

 

oito vereadores devoraram o estoque de bolacha de água e sal

enquanto aguardavam a hora de dizer presente na Câmara

 

sete ciclistas depois de assistir ao filme ET

nunca mais voltaram a pedalar no asfalto e depois da prova foram morar em nuvens destelhadas

 

seis malabaristas de esquina cobriram-se com penas de corvo

e recitaram The raven até que o verde do semáforo vomitasse vermelho e amarelo

 

cinco moças cheias de encanto prometeram sorrir somente

35 vezes por dia e antes do pôr de sol ainda que chovessem canivetes

 

quatro velhotas octogenárias foram tomar chá Earl grey

enquanto roubavam no carteado e falavam mal dos falecidos maridos

 

três patos selvagens em formação de bumerangue migraram

para o Sul porque a Verdade era como milho carunchado

 

nesta altura, Zang Di sussurrou ao meu ouvido suprima os dísticos dois e um

porque as coisas por aqui estão muito difíceis de ser engolidas

 

Acidentes numéricos

 

não quero os seus talheres

nem a fronha do travesseiro

vou viver entre dois istmos

sem temer os aguaceiros

 

errei no tango pisei  no bolero

costure o vinil nos seixos do rio

devolva-me à flor do  efêmero

esgotaram-me seus algoritmos

 

 

Azares da comunicação

eu disse dependure-se na minha orelha

e você me dependurou pelas orelhas

 

eu disse tenho medo de cães ferozes

e você me presentou com 12 buldogues assassinos

 

eu disse vamos andar de skate na ladeira

e você me empurrou contra a lixeira

 

sem colisão não existiriam mundos

mas você retorceu minha fantasia

 

devolva-me o direito de me dessedentar

ainda que seja na pia  dum boteco mal cuidado

 

Benatti in Traum/Benatti em sonho

quem deu ovos para os lagartos?

cresceram tanto, que amedrontam crianças e adultos

como puderam dizer que as folhas da amoreira

eram azuis à tarde e douradas na manhã seguinte?

se você ergue uma casa de cabeça para baixo

a família abriga-se no porão

as palavras são cuspidas pela boca

com sal ou açúcar excessivo

durma agora onde você puder cobrir-se de capim

e conte as estrelas pelos vãos da ponte

 

die gab Eier zu den Eidechsen?

Sie wuchsen so sehr, dass Kinder und Erwachsene erschrecken

wie könnte sie sagen, dass Maulbeereblätter

Nachmittags waren blau und golden am nächsten Morgen?

wenn Sie ein Haus heben den Kopf

Familie zu Hause im Keller

Worte spuckte durch den Mund aus

mit Salz oder übermäßigen Zucker

schlafen, wo man Gras vertuschen

und zähle die Sterne jetzt

durch eine Brücke Spannweiten

 

Boteco Leon Trotsky: sirva-se à vontade, embriague-se com novas idéias

 

Tivéssemos nós tido mais tempo para demoradas discussões, provavelmente iríamos cometer erros muito maiores. Quase sempre, meus amigos, as revoluções são verborrágicas. Aprenda: o fascismo não é outra coisa se não reação capitalista.

 

Boxeur que se levanta, apanha um pouco mais

 

 

pergunte ao cérebro

se a dor o retempera

 

e ao queixo

se foi à estratosfera

 

o ringue é um flat

de cordas:  sangro contra um calhorda

 

dê o cinturão de ouro

para quem vibra no  matadouro

 

Não devia ter dito o que disse

 

não devia ter dito o que disse

mas como não ter dito se eu dissera o que disse

e tendo dito você nada teria ouvido

se fosse surda ou tapasse com rolha o ouvido?

a cortiça anda escassa e esse é um problema sério

peça ao vento que mude o que eu disse

em brisa ligeira ou estrondo dum raio

deveria ter dito o que disse

não vou me desculpar com o engodo

de que fica o dito pelo não dito

no deberia haber dicho esso

i just shouldn’t have said what i did

portanto vá catar coquinho na ladeira

 

[Não me pergunte se]

 

não me pergunte

se foi rápida ou prolongada

a sensação de tepidez da água

se a lâmina tinha  gume suficiente

para abrir um sulco

entre o Impossível & o Imponderável

não me pergunte sobre minha ausência

se eu continuava a ler O estrangeiro de Camus

enquanto a mãe agonizava no asilo

não me pergunte sobre manhãs e tardes

chuvosas nem sobre gatos preguiçosos

pelo relatório da polícia

soube que a banheira foi fabricada por Marat

e comprada por uma jovem sofisticada chamada Cordélia

havia digitais num pote de Inoar mask home para cabelos finos, 250 g

recebi carta do irmão de minha bisavó Giuliana Ferri

dizendo que na banheira viajavam 6 crianças esquálidas

que se perderam dum barco de  refugiados no Mediterrâneo

 

[O chão arrastava as cadeiras]

 

o chão arrastava as cadeiras

o suficiente para que distassem da mesa

metro ou metro e meio

o som impertinente ajuntava-se no ouvido

a outros sons – enxame de fogo rubro

as bermudas iam e vinham

quis perguntar ao velho quantos  anos ele tinha

& se as pessoas feias eram mais numerosas que as bonitas

não o fiz para não parecer mais esnobe

que o gravado no  rótulo que colaram ao meu inexistente chapéu

chiharu shiota disse-me: as cadeiras quebram-se com  o tempo

e o barco sem remos emborca-se no oceano

 

Plano de vôo

o pássaro voa na folha de papel

a folha de papel tem o formato duma nuvem

a nuvem espreita o elefante

mas sonha com uma pedra

o medo é feito de coragem empalidecida

estou aqui embaixo

enquanto o povo à minha volta

olha para cima à espera dum asterisco perfumado

minutos antes de ser baleado

o motoqueiro acelerava a gorjeta

agora diz o repórter que ele corre risco de morte

já que a vida por pouco não ficou no meio-fio

na coluna social a beldade

é linda de morrer até às 3 da tarde

depois disso as camadas de creme  se desprendem

como Anselm Kiefer faz com as placas

endurecidas de tinta

desconstrua-me à vontade

volto sempre a ser imensa tela em branco

à espera do pássaro da criança

 

Cardápio

 

os desencontros de Amor

não são para  jovens

em cujos olhos costuram-se nuvens

à mesa os convidados irão exibir dentes alvos

& erguer brindes à Eternidade

as noites  vão abrir-se, calmas,

para um demorado Verão

os pratos quentes  solicitarão

às  bocas  sem espinhos

morangos  não estragados

 

Leon & Mathilde

 

Leon não matava por prazer

mas para ganhar a vida

não lia nem escrevia

por trás  duma janela romântica

a  folhagem conhecia a hora do sol

enquanto seus mortos dançavam no seco

Leon assistia a Just walking  in the rain

o guarda-chuva de G. Kelly lembrava uma metralhadora

microcosmo para além da morte

Leon conheceu Mathilde

a garota que levava na cara de pai  mãe e  irmã

os adultos sovam feio   as crianças

para deslindar-se da monotonia

 

a vida é muito  dura só quando a gente é criança

Mathilde apaixonou-se por Leon

confessou-lhe que tinha o estômago quente

a história de ambos não é  alegre nem triste

a não ser que você ache que o mundo deveria ser  alegre ou triste

 

Conselhos de velho não aquecem

 

para cima todos os peixes ajudam

desde que a cachoeira se arrume

para baixo que um anjo nos acuda

desde que as asas tenham fechadura

o meu sol move-se de véspera

empoa-se até tarde no arco-íris

tudo o que você sabe

cabe sempre num dado

meu burro anda meio de lado

espalme a mão enrugada

encontre um dado suado

quem viveu até então  para si

quer agora a multidão

eu me aqueço na solidão

diga à moça enfezada

que o mundo só bebe limão

a praia arrasta sargaços

para exorcizar o naufrágio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s