A destruição da inocência

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Luiz Roberto Benatti

O inocente olha para cima para ser abençoado pela intensa luminosidade do esperto, o vivaldino, aquele que, dia e noite, vai soprar-lhe no ouvido que as ações verdadeiras são aquelas em que os participantes acreditam que estão num jogo de mentirinha, isto é, de pura diversão e seguros de que não serão lesados pelo gênio do mal ali presente. No final do jogo, perceberão os incautos que todas as suas bolinhas de gude mudaram de bolso. A tragédia Otelo de Shakespeare não aponta apenas para a questão do ciúme, mas em particular para a inocência de Desdêmona, num desvio de destrutividade engendrado por Iago. É dele que procede a luz irradiada que, emanada do alto, entra pela cabeça de Otelo para se instalar em seu coração. A inocência não é em si mesma parte dum comportamento primitivo, mas resíduo de infância ou adolescência incutido nos meandros físicos e cerebrais da futura vítima. Iago quer destruir a entrega amorosa verdadeira porque seus mecanismos para o amor se desmontaram até o ponto em que a ferrugem os cobriu de farelos venenosos. O domínio do perverso sobre o inocente preside as relações de afeto, comércio ou indústria, senta-se na mesa de reunião do administrador, a ponto de transformar a espontaneidade numa peça em desuso.

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