O HOMEM DA COBRA

 

001Sérgio Roxo da Fonseca

                    Professor e advogado

 

             Por volta da metade do século XX dois acontecimentos atrairam a atenção do nosso pessoal. O som da música “Senhorita”, composta pelo Armandinho, e as constantes visitas realizadas pelo conhecidíssimo homem da cobra.

        A música falava dos olhos de uma moça que conseguiam enternecer até mesmo a estátua de bronze que até hoje ameaça jogar granada no Pedro II. E o homem da cobra, que percorria caminhos conhecidos e veredas desconhecidas, prestando seus serviços na esplanada carregando sempre uma misteriosa mala fechada. Quem não quer ver o fundo da caverna?

             O homem da cobra logo de manhã iniciava o seu discurso que somente se encerrava lá pelas tantas da tarde. Dizia que no interior da mala dormitava uma cobra venenosíssima, adquirida nas Índias, que matava suas vítimas na primeira dentada. Após o preâmbulo, permanecia caminhando apressado ao redor da mala trancada, solicitando aos presentes que formassem uma roda, permanecendo todos bem à distância. Nem mesmo a cobra atinava pelo tanto de veneno que continha sua mordida.  Podia morder a orelha de um elefante ou saltar acima do Teatro Pedro II. O homem falava que te falava. Mas a mala sempre permaneceu fechada.

             O mundo é misterioso, alguém sentenciava da porta do Pinguim. O que podia ser pior: o veneno da cobra ou o atrevimento da dona Elza que atravessou a General Osório dirigindo o carro do seu marido? Será o Benedito? A cultura humana não soluciona tão difíceis proposições lógicas. Melhor é pedir outro copo de chope e debater sobre a perplexidade do rococó do rabo do hipopótamo.

       Para espanto geral, o homem da cobra, sem parar de falar, abriu a mala. Mas a cobra não estava ali, pois a mala dela era outra. Com um sorriso rasgado, de lá retirava unguento de picrato de butesim próprio para queimaduras; se o freguês não quisesse, podia levar um vidro de quina petróleo, destinado aos calvos, apelido que dava aos carecas; quando não a famosíssima pomada de basilicão, para o curativo de furunculose intermitente; ou também arnica para fechar mordida de cachorro louco ou picada de mosca varejeira.

       Vendida toda a mercadoria, o homem da mala saiu correndo para abrir a mala da cobra, mas a chave estava enferrujada. Não abriu. O jeito é voltar amanhã, quando então será distribuído o último almanaque da “Saúde da Mulher”. Até amanhã.

       Foi quando ouviu, sei lá de onde, a música “Senhorita”, composta pelo também famoso Armandinho. Falava dos olhos maravilhosos de uma moça inoculados de um veneno mais tenebroso do que o da cobra desconhecida.

       A pequena multidão desesperançosa foi-se desmanchando, com a promessa de sempre voltar para conhecer a cobra da mala fechada. Quem não quer conhecer o mistério do outro dia?

       Um deles ficou na Praça XV até quando seus olhos foram alcançados pelos olhos da senhorita. Aqueles olhos dentro dos seus olhos eternizaram-se para nunca mais dali sair sem necessitar de chave nenhuma para abri-los ou fechá-los.

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