PAULO HESS E A VIAGEM

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Sérgio Roxo da Fonseca

 

       Conheci o Paulo antes de 1970.  Era ele promotor de Justiça de São Simão. Na época prestei concurso para o Ministério Público.

       O Paulo e sua esposa Cármen, ambos egressos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, tinham uma característica muito forte e incomum: eram católicos e transportavam a sua fé cada a  passo de sua longa caminhada.

       Num encontro de promotores na Baia, descobrimos algumas coincidências que nos ligavam. Sou também descendente de uma alemã chamada Maria Willermina Hess. Então também somos parentes!

       Conversa vai, conversa vem, acabei dizendo que, quando jovem, havia feito o curso de piloto civil. Sou da reserva da FAB. ”Meu filho também é”, disse ele, “pretende fazer carreira caminhando pelas nuvens”. O tempo ilusoriamente nos afastou. Ele em São João da Boa Vista, eu caminhando pelas antigas rotas do feiticeiro Anhanguera.

       No final de janeiro de 2018, com vários amigos da área jurídica, tomei um avião em terras arábicas, na ponta do Golfo Pérsico. O enorme avião A380, maior do mundo, transportava mais de 600 passageiros e, provavelmente, pelos menos 1.200 malas. Assim que o brutamonte atacou os céus, o seu comandante saudou os passageiros em Inglês e em Português, identificando-se como Plínio Hess.

       É o filho do Paulo, imediatamente comuniquei aos meus amigos.  “Que nada”! Seria uma baita coincidência. Conversamos muito durante a viagem, mas não batemos na porta do comandante. Sem tocar o chão, o avião cortou a Península Arábica, sobrevoou o Mar Vermelho (aquele mesmo cruzado a pé por Moisés e seus amigos), avançou pela Abissínia, cortou a África arranhando o sul do Saara, para atingir São Paulo. Uma viagem de 15 horas. Mama mia! Sem parar nem para beber água.

       Em Guarulhos, arrastando quatro malas, topo com os oficiais do comando do A380. Pergunto quem era o Comandante Plínio Hess. Um deles identificou-se. O senhor conhece um promotor de Justiça chamado Paulo Hess. “É meu pai”, respondeu. Em poucas e emocionadas palavras contei para ele um pouco da nossa história. Soube então que o Paulo permanecia em São João da Boa Vista. Obrigado, adeus, comandante Plínio Hess.

       Findo janeiro, um pequeno grupo de amigos reuniu-se em Poços de Caldas. “Vamos telefonar para o Paulo”. A Cármen, filha dele e da Cármen, foi quem atendeu o meu telefonema. Disse-me que o Paulo estava descansando. Solicitei que lhe dissesse que seus amigos o aguardavam em Poços, onde deveríamos falar sobre a ilusão do tempo, rasgado pelo avião do Plínio. A Cármen prometeu transmitir o convite.

       O Carnaval passou e o Paulo não veio.

        Poucos dias depois, a APMP nos comunicou o falecimento do extraordinário promotor de Justiça Paulo Hess, que havia partido para as nuvens em busca da sua Cármen. O tempo é uma ilusão? Pelo menos para os homens, parece-me não ser.

 

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