A proliferação da cultura muitas vezes se faz como anticultura, ou então como kitsch empastelado

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Luiz Roberto Benatti

 

A coisa está de tal modo empastelada, que o vocábulo “reacionário” passou pelo cirurgião plástico de onde saiu bonito e perfumado, como se positivo fosse. Há também aquela antiga proposição de humor irônico que se referia à “ignorância ao alcance de todos”, isto é,  o ignorante  assumia seu completo desconhecimento das coisas mais triviais,  para a seguir espalhá-lo por aí como se o péssimo, de repente, pudesse ocupar o lugar do bom. Os exigentes teriam de se meter num buraco que o conduzissem, não para o Japão (apesar de Mishima), mas para Marte, na expectativa de que lá as coisas fossem mais elevadas. Suponha, p. ex., que você quisesse conversar sobre André Gide, num país que não lê esse francês há décadas, quando, pelos anos 40s e 50s, quase todos os apaixonados por Literatura o leram. Fosse você falar da União Soviética, e o nome de Gide seria lembrado; ou então da África. A cantora declara aos jornais eletrônicos que se entregou, de vez, à paixão lésbica, todavia, pergunto, o que sabe ela do Corydon,  publicado aos poucos pelo escritor francês entre 1911 e 1920 e, na íntegra, em 1924 (existe edição em Português)? Corydon é o tratado da homossexualidade, cujos “reacionários”, se se dispusessem a lê-lo, ficariam surpresos com a quantidade de informações cruzadas e recruzadas do tema. Gide esgotou o que até então era conhecido sobre o assunto. O pastor Corydon é figura muito antiga em quase todas as literaturas do Ocidente: está nas Éclogas, de Virgílio, autor latino que jamais disfarçou sua vocação homossexual. Corydon é avatar de Aquiles, apaixonado por Pátroclo, mas também do Aschenbach, de Thomas Mann, encantado por Tádzio, o garoto polonês de rara beleza. Gide, pederasta, freqüentou a meninada na África. A grande poeta norte-americana Edna St. Vincent Millay, insuspeita, escreveu a Ária da capo, monólogo a ser localizado na internete, em que Corydon faz seu retorno. O pajem-pastor, loiro ou moreno, vai e volta, de tal modo que nossa vã filosofia possa impedi-lo de reencarnar-se.

[ Millay sob a magnólia, na imagem ]

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