Mariposas & Motten, Adoniran e o professor Immanuel Rath

Luiz Roberto Benatti

Por menos letrados que tivessem sido os pais de Adoniran Barbosa, ao filho legaram a Língua italiana e, a reboque, a cultura veneziana, com a lembrança do Teatro Comunale “Tullio Serafin” de Cavarzere, cuja estrutura belíssima resistiu ao fogo de contenção dos alemães na Segunda guerra, assim como em épocas remotas a comuna havia resistido  a invasões de humos e lombardos.Adoniran ou João Rubinato, seu nome de batismo, bateu à porta dos teatros paulistanos inúmeras vezes, sem sucesso, como nas emissoras de rádio. Em 1955, com 45 anos bem contados no lombo, compôs As mariposa, cujo clima, rimbaudiano, lembra Au cabaret vert ou La maline. A escola de Adoniran fez-se  nas ruas e na memória, mas ele estava muito longe de ser simplista. Em 1955, O anjo azul, de Joseph von Sternberg, já havia completado 25 anos e, se Adoniran o viu ou não, não sabemos, mas, com certeza a letra de As mariposa lembra a composição  Ich bin von Kopf bis Fuss auf Liebe eingestellt que Friederich Holaender escreveu para Marlene Dietrich cantar em Der blaue Engel. O Anjo azul é a história de paixão e ignomínia do professor de Literatura e Língua inglesa Immanuel Rath que, ao surpreender os alunos com o retrato de Lola Lola, atriz do cabaré “Anjo azul”, fica possesso e, ao se dar conta de que os estudantes poderiam perverter-se, vai até a cantora para repreendê-la. Idoso e solitário, ele se apaixona pela bela corista. Na volta à escola, Rath ou Rato, em Alemão, torna-se alvo de chacota dos alunos e acaba por ser despedido. Movido pelo fogo renovado do amor, passou a viver e a ser sustentado por Lola, até que ela o descartou. O filme foi proibido pelos nazistas, bem como sua quase-versão nacional – O anjo loiro -, de 1973, censurado pela ditadura militar. Quem o dirigiu foi Alfredo Sternheim num filme que ousou mostrar a esplendorosa beleza nua de Vera Fischer. Sternberg usou como roteiro de Der blaue Engel o romance de Heinrich Mann chamado Professor Unrat. Heinrich era irmão de Thomas Mann e ambos filhos da brasileira Júlia da Silva Bruhns. Para que Adoniran se encontrasse com os alemães, seus pais tiveram de emigrar de Veneza para o Brasil. Os pontos de identidade entre as duas composições estão nos seguintes versos, cuja tradução do Alemão procurei adaptar: Eu sou a lâmpida/e as muié é as mariposa/que fica dando vorta em vorta de mim/todas noite só pra me beijá (Adoniran) e Os homens esvoaçam ao redor de mim/como mariposas em torno da luz/e, se eles  se queimam,/nada poderei fazer (versos da  canção alemã).

 

 

 

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