Thomas Mann poderia ter-se inspirado em Manoel Bandeira para construir a figura de Hans Castorp, protagonista de A montanha mágica

Luiz Roberto Benatti

Num curto ensaio bastante precioso denominado A vida inteira que podia ter sido e que não foi: trajetória dum poeta tísico, Ângela Porto, pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, RJ, escreveu que “a poesia foi a maneira usada por Bandeira para redesenhar a auto-imagem”. Vemos pelo ensaio como a doença apanhava na rua ou na casa a criatura para privá-la de vida social, fragilizando-a, exibindo-lhe dia após dia o rosto da morte, nela provocando o pesadelo da vida prestes a ser ceifada. O pobre morria em catre imundo, o moço de família abonada, como foi o caso de MB, era deslocado de Campanha, MG, para Teresópolis, Maranguape, Uruquê, Quixeramobim, Petrópolis, ou, em 1913, para Clavadel, na Suíça, cujo sanatório, localizado no alto da montanha, foi construído em 1903-1904. Para os estudos de Literatura comparada e a reinserção do Brasil no mundo largo da Cultura, a internação no Berghof, em Davos, é acontecimento exponencial, em particular porque, ali, Bandeira torna-se, malgrè lui, o protagonista Hans Castorp de A montanha mágica, de Thomas Mann. Castorp esteve no sanatório em visita ao primo Joachim Ziemseen, com o propósito de ficar ali por 3 semanas que se prolongaram por 7 anos, em razão dos acometimentos de tosse do visitante seguidos de internamento. Assim, Hans adia em Hamburgo sua iniciação na carreira de engenheiro, como Bandeira que, em 1903, matriculara-se no curso para engenheiro-arquiteto da Escola Politécnica de SP. Em 1912, Thomas Mann visitou no Berghof a belíssima esposa Kathia Mann, tomou notas sobre o que viu, para, em 1924, publicar o romance, cujas oitocentas e tantas páginas terão de ser vencidas pelo leitor interessado em saber como se deu o fim do mundo burguês antes da Primeira grande guerra, micro-universo que desapareceu por completo, ainda que a política miúda insista em denominar de burguês esse ou aquele indivíduo. Diante dum dia que escorria de maneira lenta e opressiva, e sob frio intenso, os internos dividem-se em mesas de debate e falam pelas personagens Settembrini e Nafta sobre razão e mistério, esperança e ceticismo, liberalismo e autoritarismo, liberdade e prostração. Hans Castorp a tudo ouve com muita atenção ainda que oscile dum contendor para o outro. Na verdade, o verdadeiro motivo que levou Hans a permanecer no sanatório foi a russa Clawdia Chauchart que o iniciou na arte amorosa. A russa talvez tenha sido criação de Th Mann  inspirada em Helena Diakonova, a Gala de Dali antes casada com Paul Éluard, tuberculoso como Bandeira em Davos. Os debates no sanatório organizam o romance e essas polêmicas, mais tarde,em 1929,  vão-se constituir no centro do debate, nos Alpes, entre Heidegger e Cassirer ou então entre o existencialismo e a metafísica. A personagem de Naphta pode ter tido por recheio Georg Lucácz. Ao deixar o sanatório, Bandeira publicou Libertinagem e Carnaval cujo clima lembra a festa carnavalesca de iniciação de Hans Castorp por Clawdia Chaurchard que se inspirou na noite de Walpúrgis do Fausto de Goethe. Por pudor, quem sabe, Manoel Bandeira jamais nos contou sobre a real identidade do protagonista de Thomas Mann.

[Imagens: Manoel Bandeira e Kathia Mann].

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s