A mão sangra mas  a aldeia não era uma tekoá

Luiz Roberto Benatti

 

Em 1951, na antevéspera da comemoração do IV centenário de SP, Oscar Niemeyer riscou na prancheta a Oca, por alguns anos ocupada pelo Museu da aeronáutica.  O arquiteto inspirou-se na moradia indígena. Ele gostava de conchas, abóbodas e arcos de concreto. Em razão da dificuldade de sustentação do domo, os austríacos desenvolveram a concha pneumática. Em 1959, o arquiteto australiano Roy Grounds construiu em Camberra um domo ou oca que se tornou uma espécie de edifício paradigmático da cidade e que aparece em várias passagens dos episódios do  filme Secret City. O edifício da Austrália abriga a Universidade de Ciência.  No imaginário de muitos de nossos intelectuais, estaremos sempre muito mais próximos da tekoá guarani como o lugar dum modo de ser paradisíaco e incorruptível  do que da ciência, cuja lógica cartesiana nos parece ter sido  destilada na usina do demônio. Niemeyer foi discípulo de Le Corbusier que, em Chandigarth, na Índia, construiu uma mão aberta, acima dum portal: a mão que se movimenta pelo vento estende-se para propor  a desejada unidade dos homens na Terra. Inspirado no mestre francês, Niemeyer fez para o Memorial da América Latina uma mão sangrenta, parte dum corpo ausente  que se esvai por força das ações maléficas dos EUA, como advoga a esquerda infantil execrada por Lênine em 1920. O livro As veias abertas da América Latina constitui um panegírico da mão sangrada. Como a América Latina acha-se nas entrelinhas do Samba do crioulo doido, por ocasião da 5ª. cúpula das Américas, Hugo Chávez ofereceu o livro a Barack Obama. O inimigo do meu inimigo é meu amigo.

 

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